As RUP e a Macaronésia. Que relação?

Janeiro é esse mês excessivamente confiante, convencido de que um simples virar de página tem poderes quase milagrosos. Prometemos tudo: mais disciplina, mais lucidez, menos adiamentos, decisões firmes... Fazemos listas como quem acredita, por breves dias, que a vida se deixa domesticar por bullet points.
Foto cedida por Susana Gramilho

Depois o entusiasmo abranda, o quotidiano impõe-se e as resoluções entram naquele território ambíguo onde nada falhou oficialmente, mas quase tudo ficou a meio caminho.

Ainda assim, insistimos. Porque o Ano Novo não é tanto um exercício de ingenuidade, mas de direção. Serve para perceber o que já não faz sentido continuar a empurrar com a barriga e o que exige atenção continuada, foco e vontade, antes que o tempo nos volte a passar à frente. E esse tal “tempo” que muitas vezes usamos (também) como desculpa, é implacável. Não anda devagar. A mim, parece correr… 

Quando damos por isso, os momentos verdadeiramente relevantes já estão em cima da mesa, como o mês de abril com as comemorações do 50 anos da Constituição da República Portuguesa e, para a região, data de especial relevância; como o mês de novembro com a IV Cimeira Internacional da Macaronésia, a realizar-se na Madeira, previsivelmente (já) no mês de novembro, conforme definido em Lanzarote, em novembro de 2024. Este momento não deverá ser encarado como um evento isolado no calendário, mas como uma resolução concreta e imediata de natureza política e geoeconómica. Trará expectativas, atenção externa e uma oportunidade singular de afirmação num espaço arquipelágico que partilha muito mais do que mar.

Convém clarificar: a Macaronésia contemporânea já não se esgota na afinidade da flora ou em notas de rodapé académicas. Hoje fala-se de cooperação política, de cooperação turística, de economia, de mobilidade, de cultura, de educação, de sustentabilidade aplicada e de estratégia comum. Quem olha para este conceito como se estivesse confinado a herbários, possivelmente não tem acompanhado os seus muitos pequenos “passos”.

No plano europeu, a questão é ainda mais pertinente. A União Europeia reconhece as suas Regiões Ultraperiféricas (RUP), incluindo Madeira, Açores e Canárias, na base jurídica dos artigos 349.º e 355.º do Tratado sobre o Funcionamento da UE, precisamente para mitigar desafios derivados da ultraperiferia e assegurar instrumentos adaptados de coesão e desenvolvimento. A discussão sobre o futuro Quadro Financeiro Plurianual tem levantado preocupações de que esse reconhecimento não seja adequadamente refletido no novo modelo orçamental europeu, algo que autoridades regionais e deputados europeus consideram um risco real para a coesão e para o potencial destes territórios.

Possivelmente, talvez esta seja, uma das resoluções que mais merecem ser levadas a sério: encarar a Macaronésia não como um conceito abstrato ou tema lateral, mas como um espaço estratégico de cooperação real e tangível que reforça a posição das RUP no seio europeu e sublinha o seu papel ativo enquanto agentes de integração, inovação e crescimento sustentável. Porque o futuro raramente espera por quem hesita. E quem chega tarde à conversa acaba, quase sempre, a ouvir decisões já tomadas.

 

Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.

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Susana Gramilho

Susana Gramilho

Cônsul Honorária de Cabo Verde na Região Autónoma da Madeira, Presidente da Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira e Diretora Pedagógica da Associação Amigos da Diáspora e Emigrantes Madeirenses, mestre em Educação, pós-graduação em MBA/Gestão,cronista do Jornal da Madeira, escritora, encantada por música, livros e pela prática desportiva. Apaixonada por Cabo Verde, pelo seu povo, pela sua rica cultura, pelas mornas, empenhada em aprender crioulo e em estreitar relações entre a Madeira e Cabo Verde e na promoção da Macaronésia.

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