Nostalgia de Soncent

“Um vez soncent era sab”... Sérgio Frusoni faz-nos sonhar com uma cidade próspera de outrora. A nostalgia traz-nos saudades dos tempos áureos do Porto Grande, frequentemente encarados como o ápice das vivências da ilha do Monte Cara. A verdade é que viver nesta ilha nunca foi fácil.

São Vicente não nasceu da abundância, nasceu da necessidade. Esta insula árida sem ciclos agrícolas que justificassem a permanência de pessoas foi palco de um movimento de resistência de um povo que aprendeu a “comer pedras para não perecer”. O nosso município nasce a partir de uma infraestrutura precária e sem recursos guiada pela imaginação é alimentada pela resistência.

A escassez fez com que o povo da ilha aprendesse o improviso e a capacidade de se adaptar constantemente. Foi o seu engenho e inteligência coletiva que o construiu, ao ritmo da circulação de pessoas, línguas e ideias. Ao contrário de outras ilhas, São Vicente não foi fundada a partir da terra, mas do movimento e da capacidade de se reinventar constantemente, como um lugar de ligação, de tráfego e de encontros breves que pouco a pouco se tornaram permanência. 

Essa origem explica muito do que somos, uma urbanidade precoce, caracterizada pelo cosmopolitismo intuitivo e pela efervescência intelectual e cultural.

A instalação do Porto Grande fez com que São Vicente se desenvolvesse como uma cidade de trânsito, marcada pelo fluxo constante dos marinheiros, comerciantes e trabalhadores portuários. Uma cidade periférica com o Atlântico como porta de entrada. 

Este contexto criou um ethos marcado por um debate político e social precoce e a uma vida cultural que se organiza fora das instituições coloniais formais. Os clubes recreativos, os grupos de teatro e de Carnaval, e os coletivos musicais foram o berço da modernidade cabo-verdiana.

É neste contexto que, no final do século XIX, surgem os jornais, tertúlias e, posteriormente, a afirmação de figuras ligadas à Revista Claridade. São Vicente consolida-se como a ilha da palavra, da arte e da crítica.      

Mesmo com o declínio do Porto Grande, que fez com que a ilha perdesse a sua centralidade económica e entrasse em ciclos de crise e desemprego, a cultura não só resistiu, como desempenhou um papel fundamental na regeneração da ilha, criando novas dinâmicas sociais e económicas.   

No período pós-independência o município estabelece-se enquanto espaço de criação contemporânea e de afirmação cultural com festivais, movimentos culturais, teatro e música. Hoje, o Mindelo é o laboratório cultural de Cabo Verde.

Mesmo que hoje se fale na estagnação da ilha, não devemos permanecer na nostalgia cantada por Frusoni (por mais linda que seja a morna) mas sim tentar imaginar e criar um futuro “sab pa Soncent”.

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Nick Fortes

Nick Fortes

Investigador, produtor cultural, ator, encenador, dramaturgo e ativista. Doutorando em Comunicação, Cultura e Artes pela Universidade do Algarve, Mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa e Licenciado em Marketing pelo ISCEE.

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Sofia Torres de Carvalho

Sofia Torres de Carvalho

Cantora, com formação de base em Psicologia (Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa) e Canto (Escola de Música do Conservatório Nacional), tem-se dedicado à música tradicional de Cabo Verde, com especial foco na investigação e interpretação da música de intervenção cabo-verdiana.