A Metamorfose

Uma crónica da Cleo Garcia Freire.

– Vamos sair hoje?
– Não sei …
– Como não sabes?
– Vou ver; depois digo-te qualquer coisa.
– Se desta vez não fores, podes te esquecer da nossa amizade.

Apesar de saber que em hipótese alguma queria sair de casa, respondera a Lucy que iria pensar; e, ante a reação da amiga que mais uma vez ligava para obrigá-la a sair porque assim o queria não se lhe importava ter ela vontades próprias ou não, embrenhar-se-ia a fundo na reflexão existencial que, ultimamente, já não se queria calar. Era um hábito há muito estabelecido não lhe serem tidas ou achadas as vontades; pelas pessoas que, por se terem cruzado nalgum ponto de suas existências, estavam convictas ela ter ficado nesse instante; continuando a tratá-la como se a vida não lhe tivesse acontecido. Pior do essas somente as que, porque muito próximas, tomavam-na por garantido.

Era o caso da Nina; a amiga que acabara de ameaçar privar-lhe da sua amizade, caso ela ousasse negar-lhe os plenos poderes sobre a sua própria disponibilidade. Lucy era o tipo de pessoa que numa palavra poder-se-á descrever como: amiga; uma pessoa que preza as suas amizades e, para as não melindrar, não raras vezes a favor das alheias sacrificava as próprias vontades. 

As duas eram amigas desde a época da universidade e durante longos anos partilharam o mesmo gosto e disposição por noitadas e paródias de sexta a domingo. Eram nessa época assíduas em festas e discotecas na cidade onde viviam, em cidades distantes e nem eventos religiosos se lhes escapavam; como daquela vez em que encontrando na faculdade um grupo de amigos numa animada conversa sobre uma viagem à Espanha, logo arranjavam uma maneira de também se fazerem presentes. 

O motivo de terem sacrificado os últimos tostões do mês para estarem no evento da igreja do bairro dos amigos, estava longe do cristão propósito de visitar o lugar onde se encontra o túmulo do Apostolo Tiago; fora, sim, pelo puro prazer da aventura.O facto de chegado ao destino terem de antes de qualquer outra coisa entrar com o padre, as irmãs e o grupo de religiosos na Catedral de Santiago de Compostela; para as orações que nenhuma das duas sabia dizer, era um mero detalhe. 

Houve também uma época em que pareciam coletoras de festivais de norte a sul de Santiago, e pelas ilhas; além das viagens de barco em excursão de fim de semana à ilha do Maio com grupos de amigos.

Hoje, todavia, já nada disso fazia brilhar os olhos de Lucy; mudaram-se-lhe os interesses, as prioridades. E, sem pestanejar, trocaria qualquer sexta-feira de ontem por deixar-se ficar em casa acompanhada de ninguém; dormir no sábado, até doer-lhe o corpo; e depois de regar as suas plantinhas, passar o resto do domingo a ler enquanto em modo repetir apreciava as suas músicas favoritas. 

No entanto, Nina, a sua amiga querida, com o mesmo fervor cultivava os mesmos programas; daí a sua dificuldade em compreender que mais do que deixar de proporcionar-lhe prazer, obrigada a fazê-lo transformar-se-ia para a Lucy num verdadeiro martírio.

Mas como se negar a fazê-lo sem correr o risco de perder-lhe a amizade? Apesar de incomodá-la continuar a ser tratada como quando só se decidia por namorar ou não este ou aquele rapaz depois ter ouvido o que todas as suas amigas tinham a dizer a respeito, para sentirem-se-lhes minimizadas as amizades, não conseguia se livrar de tal imposição.

Por isso, desde o dia em que a regar as suas plantas dava-se com um casulo vazio preso à haste, e via depois por detrás do pé de hortelã pousada no vidro da janela a borboleta preta com pinceladas de um amarelo vivo, volta e meia dava-se consigo a pensar na metamorfose da borboleta. E comparava-o ao processo de evolução do ser, estar e a forma de lidar com o diferente do ser humano. Dividindo-o em quatro etapas distintas, classificaria como fase: ovo, a infância –, a fase na qual com maior ou menor grau de mediação limitamo-nos a absorver o que nos fornece o meio circundante; e a questão saber quem se é, está ainda longe de se pôr. Na fase seguinte, a da lagarta, influenciados pelas flutuações típicas da adolescência, além das certezas sobre nós e os outros, julgamos pertencer-nos o mundo e a linha do tempo que gira em função dos nossas vontades e anseios.

Até quando, chegada a fase da crisálida, começam a surgir os questionamos. Quem sou eu, afinal? E, então, aos poucos, vamos nos livrando das várias camadas de crenças impostas e incorporadas em busca da tal essência; das verdades que, assumidas como intrínsecas, transmutar-nos-á naquilo que sempre deveríamos ter sido: borboleta. Uma borboleta única: adornada de cores e brilho próprios; porque nem todas as borboletas precisam ser pretas com pinceladas de um amarelo vivo no dorso e nas asas. Todavia, por alguma razão, Lucy não conseguia sair da fase crisálida. 

Faltava-lhe fazer alguma coisa e ela o sabia, mas falhava em identificar o como; não obstante as horas de reflexão e o prazer que sentia só de imaginar o bom que deveria ser, ser-se amiga para além e apesar dos limites que a liberdade pessoal de cada um determina. Quão maravilhoso seria?! A Lucy sabia muito bem-sabido que não queria ir para lado algum; mas faltava-lhe a coragem para dizer à amiga que: não.

Não tinha a coragem para dizer um não, sem que isso implicasse mentir. Um não, sem nenhum outro motivo mais especial que a sua vontade. Queria estar em casa, só, isso. No entanto, para não chatear a amiga, grabadera como era, dissera que iria pensar. E pensava. Ao mesmo tempo que tentava descobrir o mal que poderia fazer a outrem, priorizar-se a própria companhia; um não, nunca deveria invocar tanta culpa, tanto medo de reações passivo-agressivos nem as acompanhadas de ameaças de exclusão.

Da última vez em que recusara um convite, ou melhor, que não pôde estar num convívio a convite da Nina, fora por ter desistido de ir a um almoço depois de ter confirmado a sua presença; enviando no dia do almoço uma mensagem a avisar que afinal, não poderia estar presente. Por causa de mais uma das suas crises, havia passado toda a noite do dia anterior em claro; e por mais alguns dias estivera prisioneira da cama e de medicamentos para a febre, dores e inflamação na garganta. Não fora uma desculpa, portanto.

E, só então, dava-se conta de não ter tido a amiga uma única vez perguntado por mensagem ou qualquer outro meio, sobre o seu estado de saúde. Era o que ela teria feito; Lucy ter-lhe-ia telefonado, visitado e ter-lhe-ia feito a canja de galinha caso fosse necessário; porque assim era ela: amiga. Será que ela não acreditou que eu estivera doente?, pensava agora. E, como a conversar consigo mesma, repetia:
– É; ela não acreditou que eu estive doente. Ou pior ainda, será que o almoço era mais importante que o meu estado de saúde que para me castigar pela ausência, nem se dignou a perguntar como me sentia?

Debruçando-se agora no: se dessa vez não fores, podes te esquecer da nossa amizade, diria:
– Não! Eu não sou obrigada a nada!

E pegava o seu telemóvel para retribuir-lhe a chamada.
– Alô. – Respondia a Nina.
– É só para te dizer que eu não vou sair.
– Porque …
– Porque não quero sair, só isso. Eu não quero sair!
Dizia calmamente, e ante o silêncio do outro lado da linha com um sorriso desligava o telefone. Foi assim que, enfim borboleta, dava a Lucy o seu primeiro voo.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Cleo Garcia Freire

Cleo Garcia Freire

Sou uma amante da música e das letras e apaixonada pelos pequenos presentes da vida:
uma caneca de café quente; o cheiro do pão acabado de sair de forno; brisa do mar e
outras gotas de felicidade.

Outros artigos