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Havia uma garça a sobrevoar Engenhos quando a Sra. Alcinda, presidente da Associação Agro-Ricabom, interrompeu a conversa, apontou para o céu e disse com a naturalidade de quem sabe: “Há chuva no mar.” Instantes depois, caíram os primeiros chuviscos.
Aquele momento não constava de nenhum relatório técnico de adaptação climática. Estava num conhecimento construído ao longo de décadas de escuta da terra, da água e do vento — um saber que o Estado raramente ouve e que raramente conta.
É disto que trata este artigo. Não de comunicação como estratégia de marketing institucional. Mas de comunicação como poder: o poder de ser ouvido, de participar, de existir nas decisões que moldam a própria vida.
As mulheres de Engenhos, no interior de Santiago, são as maiores produtoras de alface da ilha — e muito mais do que isso. Através da Associação Agro-Ricabom, dedicam-se ao desenvolvimento comunitário, à conservação dos solos, à educação, ao setor agro-silvo-pastoril, à promoção feminina e ao ambiente. Constroem diques, plantam árvores nas encostas, mantêm hortas que abastecem o mercado local. São agentes concretas de adaptação climática — sem que ninguém as chame assim, sem que nenhuma política as reconheça como tal. O tanque que durante anos serviu a comunidade está seco. A água chega agora por autotanque: comprada, cara e de origem incerta. A pergunta que as mães fazem é simples — e devastadora:
“Como sabemos se esta água é segura? As doenças de pele nas crianças são causadas pela água?”
Não é uma pergunta técnica. É uma pergunta sobre poder — sobre quem tem acesso à informação e quem fica sem ela. As desigualdades não se manifestam apenas na distribuição dos recursos. Manifestam-se também na distribuição do conhecimento sobre esses recursos.
O mesmo padrão aparece a quilómetros dali, em Achada Grande Frente, na Praia. Sentámo-nos com jovens de várias localidades vizinhas que falam sobre as suas vidas com uma clareza que envergonha muitos documentos de política pública. As chuvas de 2020, que ceifaram a vida de uma criança na zona da Jamaica, continuam na memória dos jovens e adolescentes do bairro. A insegurança no caminho para a escola é real. E o Estado — dizem eles — aparece sobretudo em época de eleições.
“Queremos ruas e comunidades mais humanas, uma escola com condições, segurança para chegar a casa. Queremos que o Estado apareça — não só quando há eleições.”
Estes jovens não são um grupo vulnerável à espera de políticas. São intérpretes ativos da governação — e produtores de conhecimento político que raramente chega às mesas onde as decisões são tomadas.
Em Cabo Verde, a comunicação pública continua a ser tratada como simples difusão de informação — como se o problema fosse apenas técnico: um portal mais completo, uma nota de imprensa mais clara. Mas a comunicação é, antes de mais, uma infraestrutura de poder. Determina quem é visível, quem é ouvido, quem participa e quem fica de fora.
O Portal da Transparência, atualmente em consulta pública, é uma oportunidade real — mas a transparência só produz confiança quando a informação é genuinamente compreendida por todos, não apenas disponibilizada para quem já sabe onde procurar.
As mulheres de Engenhos e os jovens de Achada Grande Frente fazem, no fundo, a mesma pergunta: onde está o Estado quando não há câmaras?
As sociedades mais justas não são aquelas onde todos falam. São aquelas onde todos têm a possibilidade real de ser ouvidos.
Porque comunicar não é apenas informar. Comunicar é distribuir poder.
Mónica Rodrigues
Consultora, formadora e especialista em comunicação, liderança e género, fundadora da Public Speaking Academy - Cabo Verde e do Movimento Eco-feminismo em Cabo Verde e Madagascar. Atua nas áreas de comunicação estratégica, liderança feminina, sustentabilidade e diplomacia climática, desenvolvendo projetos ligados à presença executiva, posicionamento e transformação social.







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