Romantização do Autismo 

Eu fico sempre revoltada quando vejo pessoas adultas a usarem o autismo como desculpa para explicar que não gostam de música alta, têm seletividade alimentar ou não gostam de conviver com outras pessoas. Isto é só para começar, porque piora quando começam a usar essa condição para justificar falta de caráter e até crimes.

Muitas vezes, isso não tem nada a ver com autismo. Há pessoas que são antissociais, nem toda a gente gosta de todos os alimentos e eu própria não sou apreciadora de música alta.

Também tenho visto muitos pais utilizarem o autismo para justificar o comportamento dos filhos. Quando as crianças simplesmente não gostam de comer, não são muito inteligentes, são agressivas ou são mesmo mal-educadas, tudo passa a ser explicado pelo diagnóstico.

Outra ideia muito difundida é a de que o autismo é um superpoder e que estas crianças, e mais tarde estes adultos, são extremamente inteligentes e capazes de fazer coisas que as pessoas ditas normais não conseguem.

Isso é um mito. Apenas uma minoria das pessoas autistas apresenta um QI acima da média. A maior parte da população autista tem um QI dentro da média ou apresenta algum défice cognitivo em relação ao que é considerado a média da população.

Não é raro ver artistas e figuras públicas aparecerem na comunicação social a dizer que são autistas ou que foram diagnosticados já em idade adulta, sugerindo que isso explica muitos dos desafios que enfrentaram ao longo da vida e que, no final, está tudo bem.

Também vemos pessoas autistas ou pais de crianças autistas a exporem as suas vidas e conquistas nas redes sociais, transmitindo a ideia de que tudo é possível. Essa exposição constante acaba por romantizar uma realidade que, para a maioria das famílias, é extremamente difícil, ao mesmo tempo que amplifica questões menores.

Acho que, nos últimos anos, virou moda ter um diagnóstico e ser diferente. Acredito que algumas pessoas estejam dentro do espectro e nem sequer o saibam, porque existem diferentes formas e níveis de autismo. Mas ser autista não é algo de que se deva andar a gabar.

Acredito que tudo aquilo que é romantizado, especialmente nas redes sociais, acaba por perder força quando chega o momento de lutar pelos direitos e apoios de quem realmente sofre com esta realidade e precisa das conquistas alcançadas ao longo dos anos.

Quem romantiza o autismo não sabe o que é abdicar da própria vida, do emprego, dos planos e dos sonhos para cuidar de uma criança ou de um adulto dependente.

Não sabe o que é ter alguém que não consegue ir à casa de banho sozinho, cuidar da sua higiene pessoal ou ter autonomia para realizar tarefas básicas do dia a dia.

Não sabe o que é não encontrar uma escola preparada para receber o seu filho, não ter acesso a terapias adequadas ou não conseguir suportar os seus custos.

Não sabe o que é ver o seu filho bater com a cabeça na parede porque está desregulado.

Não sabe o que é ter medo de ser agredido pelo próprio filho durante uma crise, especialmente quando ele já tem mais força do que os pais.

Não sabe o que é ver o marido ou a mulher ir embora e ficar sozinho com a responsabilidade de cuidar de alguém dependente, porque a outra pessoa não aguentou o peso da situação e foi à procura da sua própria felicidade.

Não sabe o que é não ter com quem partilhar os medos mais profundos, porque a única pessoa que os poderia compreender na mesma dimensão foi embora.

Não sabe o que é viver com medo de um futuro desconhecido.

Não sabe o que é pensar no dia em que faltar e não saber se existirá alguém capaz e disposto a assumir essa responsabilidade.

Não sabe o que é não conseguir aceitar a situação ou lidar com os olhares e sentimentos de pena dos outros.

Não sabe o que é não ouvir a voz do seu filho porque ele não fala. Não sabe o que é esperar, dia após dia, por uma palavra que talvez nunca venha. 

Não sabe…

E há tantos “não sabe” que nem vale a pena continuar, porque este texto nunca mais acabaria.

E não pensem que, por eu ser mãe de uma criança autista, conheço todos estes “não sabe” ou compreendo a dor de todos os pais de crianças autistas. Não faço a mínima ideia.

Aqui coloquei alguns “não sabe”: coisas que sinto, coisas que já ouvi outros pais dizerem e coisas que já li. Porque, da mesma forma que existem diferentes tipos de autismo, também existem diferentes formas de cada família lidar com essa realidade. Os pensamentos, os sentimentos e as experiências de quem tem o autismo presente na sua vida são profundamente diferentes, complexos e únicos.

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competências em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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