50 anos de Independência: quando chegará a nossa vez?

Meio século desde que o grito de liberdade deixou de ser sussurro para Cabo Verde. 50 anos. Cinquenta. Que número! Redondo, bonito, simbólico. Celebrar este marco é necessário. Porém, entre os fogos de artifício, existem perguntas que também gritam. Diria até correntes, que não vêm nas fotografias oficiais.

No 5 de Julho normalmente olha-se para trás: ao que foi feito, ao tanto que se lutou. Respeito e honra àqueles que tão bravamente o fizeram, sempre. Mas permitam-me, neste 2025, olhar para o hoje, e arriscar também a olhar para o amanhã. 

Fala-se muito do futuro, de como a juventude é o motor do desenvolvimento. Mas o que tenho visto é que quando essa mesma juventude tenta encontrar o seu lugar, encontra antes portas fechadas, paredes invisíveis. 

Falo disto com a autoridade de quem o viveu – e por vezes ainda o vive. Sou uma das muitas jovens que estudou, batalhou e se formou com a ambição de contribuir para o desenvolvimento da sua terra. Sou um dos muitos jovens que – talvez por teimosia – continua cá com a mesma vontade de fazer parte, de somar, de construir. Não baixou os braços. 

Entretanto, verdade seja dita, espaço para o “somar” nem sempre há. Pelo contrário. Muitas vezes senti-me bloqueada até. O que vejo é que quando chega a hora de confiar trabalho sério aos jovens profissionais, de contratá-los sem subestimar a entrega, e de lhes pagar o custo justo pelo seu trabalho, a realidade é outra. 

O que me parece é que a tão falada juventude serve para o cartaz, para a fotografia, para dar cor e corpo a eventos, mas quando chega a hora de colocar o tijolo nas suas mãos, o entusiasmo evapora-se. Nessas horas, de assinar contrato, a preferência vai para os de fora, os com sobrenomes validados, que trazem carimbo estrangeiro – mesmo que o conteúdo, muitas vezes, seja vazio.

Para o jovem de cá coloca-se uma necessidade constante de provar, todos os dias, que sabe, que pode, que é capaz de entregar. E os testes repetem-se em constantes provas de resistência. E assim, talentos são ignorados – é que não vêm empacotados com selo europeu ou rodagem institucional. 

O que me inquieta também é que tenho consciência de que essa “desconfiança” para com o poder de entrega da juventude cabo-verdiana foi gerada pelos próprios jovens. Nem todos, claro, não estou aqui a generalizar. Mas “à César o que é de César”. São vários os casos que por aí circulam de incumprimento de acordos, de falha perante votos de confiança. E no final, pagamos todos. Esta é também uma realidade. 

Todavia, existem sim jovens que entregam tudo de si, que fazem mais, que vão além. E esses merecem mais, merecem o justo. É que é frustrante ver que há orçamento para tudo, menos para pagar o devido a quem é daqui, quem vive daqui, e quem faz daqui. Eu, por exemplo, já me pediram para “colaborar” como se o meu tempo e talento não valessem nada. Infinitas vezes já ouvi o clássico “não dá para fazer um desconto?”, como se o valor da minha entrega fosse dispensável. Já me disseram que o meu trabalho é excelente, e ainda assim quiseram pagar metade. Já me ofereceram visibilidade – visibilidade! – como se isso pagasse as contas.

Já recebi um levantar de sobrancelha ou um nariz torcido ao apresentar o custo dos meus serviços. Propostas pensadas, orçamentos justos, mas que logo são contrariados com expressões que podem ser lidas como “quem tu pensas que és?!”. Fazem-te acreditar que exageraste, que devias baixar, que pediste demais. Tu, que investes em ti e te esforças a cada desafio para entregares sempre o melhor.  Pois eu digo: sou filha desta terra, fruto do suor, das lágrimas e do sangue derramado há 50 anos!

Enquanto isso, veem-se oportunidades a serem colocadas nas mãos de empresas estrangeiras, sem sequer pestanejar, por valores que fazem o teu parecer troco. É aí que dói, que frustra. Não é o orçamento recusado, é a mensagem que vem junto: o que é de fora é melhor. 

É assim que se quer que a juventude seja “o motor do desenvolvimento”? Nestes 50 anos de independência, seria bom começar a libertarmo-nos da ideia de que o que é nacional tem de ser barato, ou amador, ou voluntário. Se queremos um país que anda para a frente, é urgente acabar com a ideia de que reconhecimento é favor. Que “dar visibilidade” compensa o custo de uma vida em construção. Para, se um dia o jovem chegar ao ponto de desistir – não por falta de talento, mas por falta de confiança e valorização – ou para quando chegarmos ao ponto de emigração em massa, não haja surpresas. 

Fazem-te pensar se vale a pena. Se devias calar, fazer igual aos outros, entregar o básico. Mas eu, pelo menos, não consigo. Porque se eu calar isto nunca muda. E se insistimos, nós, os jovens, é porque acreditamos que a nossa entrega tem valor. Se continuamos aqui é porque queremos ver o país crescer connosco dentro, com a nossa contribuição. Porque, se não o construirmos nós, quem o fará?

Talvez isso, no fim das contas, seja também um acto de independência: não desistir de um país que ainda não aprendeu a reconhecer-nos. Insistir mesmo quando a tua geração ainda é tratada como nota de rodapé. 

Meio século depois, a luta continua. Não com armas, mas com palmadinhas nas costas. Continua no acto de insistir em entregar com rigor e excelência, mesmo quando o reconhecimento falta. Porque há quem acredite que ser cabo-verdiano é também isso: não esperar que te deem lugar, mas construir o teu e fazer dele chão firme.

Contudo, convenhamos: liberdade não devia ser sinónimo de resistência. Devia ser confiança, reconhecimento, justiça. Afinal, são cinquenta anos. Quando chegará a nossa vez?

Labanta braço, jovem. Finka pé na txon. Grita bo liberdadi!

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Keita Violante

Keita Violante

Mãe. Uma menina mulher com a mania de se refugiar na escrita. Atreve-se a brincar com as letras e por vezes deixa traduzir por elas lágrimas, inquietações, saudades. Ser poeta nunca se atreveria. Escreve com alma, com fervor, um toque de drama, sim, mas falta tal maestria.

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