A problemática do pensamento binário

Sempre que discuto sobre um tema, ou debato sobre a apreciação de algo, cada vez mais me convenço de que um dos maiores desafios que enfrentamos na dialética é o pensamento binário – a lógica dos extremos, das oposições e das complementaridades rígidas.

Veja-se: todos nós fomos condicionados a esta forma de raciocínio que é uma forma reducionista de entender o mundo, baseada em oposições absolutas: bem e mal, luz e sombra, razão e emoção, masculino e feminino, preto e branco, certo e errado, vencedor e perdedor, nós versus eles. Esta formatação exclui a complexidade e as nuances da realidade, reduzindo questões sociais, políticas e filosóficas e corriqueiras a uma estrutura simplificada e polarizadora. É uma coisa ou outra, como se tudo fosse simplesmente assim. Livrar-nos disso não é pêra doce.

O pensamento binário nos enclausura num mundo de simplificações que distorcem a realidade. A lógica polarizadora é terreno fértil para conflitos e intolerância. Se há apenas dois lados possíveis para qualquer questão, a discordância se transforma rapidamente em antagonismo. Esse fenómeno automaticamente alimenta a radicalização e faz escorregar o diálogo, tornando quase impossível a busca por soluções equilibradas e coletivas. Que o digam as redes sociais!

 No entanto, é importante começar por lembrar que esse modelo dualístico não é universal nem neutro, sendo antes um produto de estruturas históricas e epistemológicas que serviram para consolidar relações de poder. Lá está: essa método de categorizar a vida não é  de todo natural, mas sim de um enviesamento  da forma como organizamos e nos orientamos no mundo.

Desde  as minhas aulas de filosofia à la ocidental,  lembro dos ensinamentos aristotélicos que estabeleceram a lógica da não contradição, que exclui a possibilidade de coexistência entre opostos. Essa visão foi ampliada pelo dualismo cartesiano, que separou mente e corpo, e pelas hierarquias iluministas que legitimaram a superioridade da razão europeia sobre outras formas de conhecimento. Sem falar no pensamento judaico-cristão, que estruturou muitas sociedades ocidentais com dicotomias morais entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, pecado e virtude. Maniqueismo para aqui e para acolá. E a base de toda a nossa educação ética e moral parece-lhe inescapável. 

Com licença, mas os seres humanos não são exclusivamente racionais ou emocionais, nem completamente bons ou maus. Os próprios estudos de  gênero, por exemplo, já demonstraram que as classificações de masculino e feminino são insuficientes para abarcar a diversidade da experiência  e sujeiteza humana. Além disso, acho que a ciência moderna  já deu contribuições mais do que suficientes para que saibamos  que a realidade é mais fluida do que nossas categorias mentais sugerem. A física quântica, por outro lado, desafia a noção de que um objeto pode ser apenas uma coisa ou outra – partículas podem existir em múltiplos estados simultaneamente. Da mesma forma, a nossa identidade, as nossas crenças e as nossas experiências não se limitam a um espectro de opostos fixos.

Superar o pensamento binário exige aceitar que opostos podem coexistir sem que um precise eliminar o outro. Podemos ser fortes e vulneráveis ao mesmo tempo, racionais e emocionais, tradicionais e avant garde. Pensar para além da dualidade não significa rejeitar categorias, mas sim compreendê-las como construções que podem ser fluidas e interdependentes. Quando aceitamos nossa natureza contraditória, encontramos maior liberdade para existir de maneira autêntica, sem precisar encaixar-nos em rótulos que limitam nossa expressão e nosso entendimento do mundo. 

Devo terminar dizendo que ao cultivar o pensamento crítico, a escuta ativa,  bem como aceitar as nossas encruzilhadas, podemos descobrir formas mais ricas e inclusivas de entender e transformar o mundo, enquanto ainda ele existe. Restabelecer isto é da ordem da urgência, antes que se torne emergencial.

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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