Ah São Vicente… porquê?

Ao escrever estas linhas os meus olhos estão cheios de água de tristeza, angústia, revolta e sempre com a pergunta na mente: “Por que a nossa maravilhosa ilha?”.

É um misto de sensações, já que, por outro lado, há um sentimento de alívio e gratidão pelo meu filho e pela minha família que estão fisicamente bem.

Estou aqui sentada e ainda tenho dificuldades em acreditar que uma tempestade devastou a nossa ilha e as nossas gentes, porque isso não acontece nas nossas paragens. Estas tragédias só acontecem lá fora e só vemos na televisão, não acontece connosco!.

Perder tantas vidas humanas em menos de uma hora (sim, para nós são muitas vidas) é de bradar aos céus. E como mãe é desesperador. Há um ditado que diz que quando uma mãe chora um filho todas as outras choram também e nunca ouvi um ditado tão forte e que colou no meu coração como uma tatuagem.

Todos na ilha que têm uma casa com as mínimas condições para abrigar os seus filhos com segurança devem dar graças aos seus Deuses todos os dias, porque o material volta (ou pode nunca mais voltar da mesma forma) mas uma vida humana perdida é um futuro que nunca vai existir.

Aquele rapazinho de 5 anos que morreu no meu bairro e que passava na porta do comércio da minha mãe, sempre a cumprimentar quem lá estava, não terá um futuro. Ficará só na imaginação do pai … Que criança ele seria na escola? Seria um menino com boas notas ou nem por isso? Seria um adolescente rebelde ou não? A primeira namorada, se calhar uma noiva, um casamento ou não … filhos?

Seria um doutor ou um trabalhador braçal? Viveria a vida toda na nossa ilha do Monte Cara ou iria aventurar a descoberta de novos mundos. Infelizmente nunca saberemos.. Quem seriam os meninos de Salamansa? Quanto dariam à nossa sociedade? Quantas vidas impactaram e teriam impactado durante a sua trajetória de vida?.

Eu nunca vou saber o medo, o terror, desespero e o cansaço de quem viveu o momento e o depois. Mas a sensação de impotência de não saber o que se passa, não conseguir falar com os teus, não conseguir confortar e amparar e principalmente não conseguir estar presente para ajudar a limpar e reconstruir é desolador. Por outro lado, por não estar a ver a destruição, mantemos a esperança de que não fomos tão afetados assim.

No meu caso quando ouvi a voz da minha mãe a dizer estamos bem, mas perdemos o nosso negócio (o trabalho de uma vida inteira) e vi as imagens da loja senti uma dor física que não consigo descrever em palavras. E acredito que como eu e a minha família vários comerciantes, pequenos empresários e as suas famílias sentiram e estão experimentando a mesma sensação e dor. Mais do que isso, a incerteza do futuro. Porque neste momento não há espaço para lamentações nem para pensar no futuro. O momento é de arregaçar as mangas e limpar para tentar salvar alguma coisa.

Tentar animar a minha irmã que viu o carro transformar-se em papel (um carro que ela demorou anos para pagar com muitos sacrifícios que só nós é que sabemos) e vê-la a lutar com a tristeza e com o sentimento de culpa por estar triste por um carro quando pessoas perderam a vida é desolador e de uma impotência horrorosa.

Mas como comecei a falar no início deste texto, coisas materiais vão e voltam, vidas humanas não. Quem perdeu só o material pode agradecer a Deus e depois começar a trabalhar para recuperar sem desmerecer a sua dor e perda também.

Não tenho palavras para confortar essas famílias, filhos, irmãos, mães, pais que perderam os seus nesta tragédia, que sejam confortados pelos que podem estar por perto, pela sua fé e pelas boas recordações que jamais serão esquecidas. Só o tempo … e não sei se o tempo chega para apagar essa dor. Não há nada que se possa dizer neste momento que seja suficiente, se calhar, e só se calhar, um grande abraço sem palavras para uns segundos de alívio.

E não posso deixar de falar aqui de quem deu a vida para salvar os outros, sim porque tivemos herois também neste nível.

Acho que este texto já está a ficar muito extenso mas permitam-me colocar no papel os pensamentos que consomem a minha mente e não me deixam dormir. Será que esta tragédia não poderia ser evitada ou no mínimo prevista? Será que, mesmo não sendo nada grave, os responsáveis não poderiam ter avisado a população para ficar em alerta? Ninguém falhou? Mesmo sendo Cabo Verde um país com poucos recursos e com escassez de chuva, não era preferível investir num material que provavelmente “nunca iamos usar”, uma vez que estamos numa zona onde as tempestades se formam e passam para dar lugar a furacões em lugares como os Estados Unidos?

Não sei, sou uma leiga na matéria e se calhar estou a divagar, mas acredito que também seja o pensamento de vários Cabo-verdianos e apaixonados pelas nossa ilhas.

Para finalizar, um agradecimento muito especial a todos que de alguma forma estão a ajudar o nosso povo a sair desta situação com a mão de obra, donativos, arrecadações, uma palavra amiga, etc. Tudo que seja para somar e continuar é bem vindo.

Djunt nos é mas Fort/Juntos somos mais fortes

Que Deus proteja Cabo Verde, a ilha do Monte Cara e as suas gentes

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competências em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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