As três peneiras e a urgência da empatia no mundo digital

Vivemos num mundo cujas mudanças ocorrem a um ritmo vertiginoso. Já não se morre apenas de velhice. Somos constantemente surpreendidos com notícias de mortes “prematuras” — crianças, jovens, adultos. Pessoas que, aparentemente, ainda tinham muito para viver.

Isso tem me feito pensar… E, a cada dia, valorizar ainda mais a companhia dos que amo, agir com mais consciência e questionar (ainda mais) o que vejo à minha volta.

E o que tenho visto, infelizmente, é muita coisa desnecessária: o maldizer gratuito, as agressões verbais, o domínio do ego, o descaso com o outro.

O Papa Francisco faleceu há poucos dias, e isso gerou inúmeros posts nas redes sociais com frases belas e profundas com que nos brindou. Porém, como as “promessas de enterro”, tudo se desvaneceu rapidamente. O mundo já voltou ao que era. Já não ressoam em nós as palavras de paz e amor ao próximo que ele tanto pregou. Voltamos ao ruído, às guerras — não as bélicas, mas as que se travam diariamente nas redes sociais.

Vejo ataques pessoais em todos os quadrantes da sociedade, especialmente contra figuras públicas.

Constantemente vejo pessoas destilando um certo “veneno”, um certo “fel”, por algo que alguém disse, fez — ou deixou de fazer.

Eu não peço o silêncio. Não, longe disso.

Peço reflexão.
Peço posicionamento ético.
Peço que, ao criticar, possamos fazê-lo com responsabilidade.
Que defendamos nossos pontos de vista com argumentos, que possamos apontar falhas com respeito, sem destruir o outro.

Porquê o ataque à pessoa?
Porquê o sarcasmo mórbido?
Para ter mais “likes”? Para parecer mais “cool”? Para se sentir bem ou superior?
(Sim, porque, como dizem os psicólogos, muitas vezes criticamos os outros para esconder as nossas próprias mazelas).

Quero somente — mais uma vez — fazer um apelo à reflexão.

Já pensou que essas pessoas têm família? São filhos, mães, pais de alguém?
Já pensou no que sentiria um parente seu ao ver ou ouvir alguém falar mal de você, sem sequer conhecê-lo de verdade?

Se não for por você, que seja pelos seus filhos, sobrinhos ou aquele amiguinho que te tem como exemplo. Queixamo-nos tanto da violência juvenil… por que não dar o exemplo?

Ao destilar insultos nas redes, estamos a ensinar aos mais jovens que é normal ofender.
Sejamos o exemplo da sociedade digna que queremos ter.

Tenho feito um exercício pessoal: o de não me deixar contaminar por essa onda de negatividade. Tento não me afastar dos amigos que caem nesse hábito, mas contenho-me nos comentários e opto por não compactuar. E sigo tentando praticar aquilo em que acredito.

Sim, eu também critico. Também sou humana. Também erro. Já fui muito mais sarcástica.
Mas, com o tempo — talvez por conta da maturidade — tenho me esforçado para pensar antes de falar.

Tenho, muitas vezes, lembrado e praticado o que aprendi com a Fábula das Três Peneiras, ainda no ensino básico. Quem se lembra?

É verdade? —Tem a certeza de que a informação é verdadeira, ou é apenas uma suposição, boato ou meia-verdade? No contexto atual, é fundamental apurar, afinal, a mentira anda muitas vezes disfarçada de verdade.
É necessário? — Mesmo que seja verdade, é necessário dizer? Vai acrescentar algo? Vai contribuir para um diálogo construtivo ou apenas espalhar mais ódio?
É bondoso? — Vai ser respeitoso? Está a expressar a sua opinião com empatia ou apenas a atacar, desvalorizar, ferir? 

Se não passar… talvez seja melhor calar…. Se for difícil, refletir e reformular a forma de comunicar.

As palavras têm peso: podem ferir, deixar cicatrizes, destruir, mas também podem curar, erguer e construir pontes onde antes apenas tinha abismo.

Termino com o poema “É urgente o amor” do Eugénio de Andrade

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura, até doer.

É urgente o amor,
É urgente permanecer.

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Delmira Sousa Veiga

Delmira Sousa Veiga

Advogada, Gestora, mãe de 2 adolescentes e 8 animais, adora estudar e escreve às vezes para acalmar a alma inquieta que é.

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