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Tudo começou quando estava sentada, à noite, na paragem de autocarro e distraída com o meu telemóvel, enquanto não chegava o transporte.Do nada, para um TVDE (Transporte Individual e Remunerado de Passageiros em Veículos Descaracterizados) para deixar uma pessoa, tudo tranquilo até aqui, levantei os olhos vi e voltei ao meu fiel companheiro nestas esperas dos transportes públicos. O motorista falou comigo, como pensei que ele estivesse a perguntar-me se precisava de carro, respondi que não e baixei os olhos, seguindo distraída com o telemóvel.
Ele não se deu por vencido, ficou parado e disse-me “és muito linda”! Dei-lhe um sorriso e agradeci-lhe, mas ele insistiu e voltei a agradecer-lhe. Pensei que tivesse ido embora, mas em vez disso contornou a rotunda da rua e parou o carro do outro lado da estrada para fazer-me um sinal com as mãos pedindo o meu telefone. Sorri já sem jeito, agradeci-lhe e disse-lhe que não, claro! Sou doida, mas não tanto para andar a dar o meu número assim. Ele lá se foi embora!
Eu e uma outra jovem senhora que estava na paragem, rimos pelo ato, pelo atrevimento e por acharmos inacreditável. Ela até disse: “não, ele não fez isso, certo?” Ela ficou a brincar comigo a dizer-me que podia ir com o ego lá em cima e que o homem até era bonito.
Foi este piropo no meio da noite que fez-me ficar a pensar, o que leva um homem a ter este tipo de comportamento do nada, enquanto estás sentada tranquila na tua vida numa paragem de autocarro? Até que ponto nós as mulheres devemos nos preocupar quando um homem num carro para e te dá uma “cantada” descarada?
Eu só pensava que não estava de roupa curta e nem muito ousada, mas o homem parou para falar comigo. E mesmo que estivesse ousada, vestida de roupa curta, quem dá o direito ao homem para dirigir-se a mim numa paragem de autocarro?
Será porque estava sentada sozinha na cadeira? A outra senhora estava de pé ao lado. Entretanto, pergunto-me porque é que só posso sentir-me segura e poder ir e vir à noite, ou mesmo durante o dia, se estiver acompanhada por um homem? Nós, mulheres, não podemos sentir-nos inseguras e culpadas por andarmos sozinhas. Quero poder sair à noite sozinha e tranquila quando eu bem entender e nem por isso estou disponível para os homens. Quero poder sair na rua e não pensar que posso ser estuprada numa esquina qualquer da vida. Quero que as minhas filhas e sobrinhas possam andar livres e soltas quando quiserem e sem medo!
Desta vez foi um comentário inoportuno e aparentemente inofensivo, mas levou-me a pensar e se estivesse sozinha naquela paragem, o que poderia acontecer? Fiquei a pensar nos nossos medos, de todas as mulheres.
Por segundos passou pela minha cabeça, que ele deveria ter pensado que eu era um “café” (os entendedores, entenderão), mas nada naquele momento mostrava isso ou dava-lhe o direito sequer de pensar nisso. Poderia estar mesmo linda, modéstia a parte (risos). Por acaso a minha filha mais pequena quando me viu, mais tarde, elogiou-me logo: “Mãe, estás linda!” Assim o coração ficou mais tranquilo.
O piropo na beira da estrada, fez-me pensar nos assédios que nós, mulheres passamos ao longo das nossas vidas. No medo que sinto quando caminho sozinha de madrugada e ou em ruas vazias durante o dia. Vivemos sobressaltadas por estes fantasmas. O pior é que quando acontece uma violência contra a mulher, que é a vítima, passa a ser a culpada, a que procurou e a ser ofendida.
Os homens podem andar sozinhos na rua, sem t-shirt e está tudo bem. A mulher se vestir algo mais ousado e curto é porque está a provocar. Caramba, o corpo é nosso e devemos pôr a roupa que quisermos e sentirmos bem. Não é porque a mulher vestiu-se ousadamente que ela, necessariamente, quer provocar e sim porque está bem naquela roupa.
Todos os dias as mulheres, em todo o mundo, passam por olhares impróprios, sofrem comentários inoportunos e muitas vezes são disfarçados de elogios perpetuados pelos homens. É preciso saber a diferença entre a conquista e o assédio. Não podemos normalizar este tipo de acontecimentos. É preciso impormos limites e fazer cumpri-los!
É preciso falar e consciencializar as nossas jovens
A nossa sociedade é machista. As mulheres vivem com tantas regras, de como sentar-se, de como vestirem-se e como estarem na sociedade. Eu muitas vezes dou por mim a dizer às minhas pequenas que não devem sentar-se de pernas abertas no público, porque fico com medo do que pode ocorrer. Como mulher e mãe tenho medo sim do que pode acontecer às minhas pequenas. Com a mais velha já falo para não andar em ruas isoladas e escuras, para ter cuidado na rua. Falo para elas sobre os limites que devem estabelecer em relação ao corpo delas, onde as pessoas devem ou não devem tocar.
Precisamos ensinar as fronteiras e os limites que ninguém pode ultrapassar, tanto as físicas como as verbais. Com a mais velha já falei para ela gritar “FOGOOOO”, caso ela seja assaltada, arrastada, ou se alguém tentar machucar-lhe.
Eu sendo mulher e negra o medo é em dobro! Quem nunca passou por um assédio? É um tema sensível, mas que devemos falar! Eu sei que desta vez, comigo, foi um motivo para umas boas gargalhadas porque ficou-se por aí, apesar de ter ficado constrangida, mas nem sempre é assim. Há homens que não têm limites e não aceitam um não como resposta. Daí vem os estupros! Homens aceitar um não, não vos faz menos homens!
As mulheres têm o direito de andar nos espaços e transportes públicos sem se sentirem inseguras, sem serem importunadas, sem ter a preocupação constante do que pode acontecer. As mulheres não devem se privar de usarem roupas e acessórios mais ousados por medo de serem vítimas de assédio. Não pode ser um motivo de insegurança a pairar no ar.
Andar de autocarro sem levar com a mão no rabo, ou então aquela encostada disfarçada que os homens aproveitam quando está lotado. Lembrei-me que uma vez levei com uma mão no meu rabo, eu a sair do metro, virei-me logo com a mão no ar a bater. Eram miúdos e ficaram sem jeito, pois não esperavam que eu reagisse, mas foi uma ação de autodefesa sem pensar e sem saber quem estava atrás. Nem sempre conseguimos nos defender. Ficamos com a sensação de revolta e de não conseguirmos fazer nada. O corpo é meu e ninguém toca.
Quem nunca sofreu assédio quando criança? Sofri assédio quando miúda por pessoas amigas, eram comentários inconvenientes e que me deixavam sem jeito na época. Por passar por isso e por todas as histórias que oiço é que tenho medo do que pode acontecer com as minhas meninas.
Os homens quando vêm uma criança a ficar com o corpo mais constituído, aquela fase de mudança em que já tem um corpo de mulher, mas ainda é criança, começam logo com os comentários inadequados em forma de elogio, mas que é um assédio verbal. Homens ganhem juízo e tomem vergonha na cara! Devemos ensinar às nossas filhas a denunciarem os tais abusos, sem medo de represálias. Fiquem atentas aos “elogios” disfarçados. Juntas somos mais fortes e vamos sim falar sobre este assunto.

"Nascida e criada na ilha do Monte Cara, ganhou asas para o mundo. É Jornalista de formação pela UERJ, Brasil. Adora viajar, ler, ir ao cinema, ao teatro e estar com as pessoas que ama. Atualmente vive em Lisboa, é colunista na Revista Brasileira "Coluna de Terça''e é mãe de duas princesas Luso-Caboverdianas."







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