Festival Kontornu: Resenha Crítica  “Kont(r)a Tempu” 

Uma Resenha Crítica do docente Elter Carlos no âmbito do Festival Kontornu.

Kont(r)a Tempu é um espetáculo de dança drama, um solo do bailarino e coreógrafo caboverdiano Nuno Barreto, que foi exibido no Centro Cultural Português da Praia (CCP), a 12 de maio de 2026, no campo de ação do Kontornu – Festival Internacional de Dança e Artes Performativas de Cabo Verde. 

Trata-se de uma peça coreográfica que interpela a relação do sujeito contemporâneo com o tempo, numa era visceralmente tecnológica, onde a interação humano-máquina/cultura do virtual, muito o tem modificado (positiva e negativamente) na sua própria forma de ser-e-estar-sendo-no-mundo; modificações que se mostram na própria aceleração e velocidade contemporâneas, igualmente no próprio distanciamento do ser humano de si próprio, dos outros e do meio ambiente. 

O espírito sensível do artista fez-lhe, nesta que é a sua mais recente obra, engendrar na própria dramaticidade do seu pensar em (e com) arte esta urgente temática do tempo na era do homem-máquina, fundindo-os (homem e máquina) num só ser: e tal acontece nas dimensões social, ambiental, quotidiana e cultural do mundo atual. Por isso, o artista, num dinamismo altamente performático (durante o desenrolar da peça), e numa imagética que preencheu o espaço cénico com algumas instalações (um frigórico, uma micro-ondas, um secador de cabelo, um telemóvel e um vegetal), arquiteta uma “nova ordem” do sensível, a saber, um ethos, um pathos e uma poiesis onde o corpo senciente de artista é chamado a (c)ativar o espetador para impulsos e movimentos do pensar: (con)(pro)vocando-lhe a sair de sua zona de conforto e alcançar a interioridade de seus questionamentos sobre um tema da ordem do dia.

Essa recente obra de Nuno Barreto, encontrando-se ainda em desenvolvimento da sua forma, goza da direção artística da coreógrafa e bailarina Luciény Kaabral. É, com efeito, um trabalho que traduz, outrossim, a autenticidade do próprio espírito poietico de Nuno Barreto: uma poiesis (sentido grego de criação, produção) que se remete para a heraclitiana concepção de mudança, que, efetivamente, é rastreada em todo o processo criativo e na atitude estética desse coreógrafo. Assim, essa heraclitiana mudança, no empreendimento criativo de Nuno Barreto, é movimento (dançante) e atitude epistemológica da arte como forma não só de sentir, mas também de conhecer o mundo-da-vida. 

Tudo isso para dizer que, no trabalho artístico e indagador do bailarino de Kont(r)a Tempu, o corpo dançante, na interioridade e no mistério dos seus anímicos movimentos, nunca cessa de dizer, expressar ou comunicar; aliás, a sua obra, inclusivamente este solo, está mais propensa em provocar um pensamento crítico do que, a priori, ser uma instância expressivo-comunicativa de algum sentido previamente dado, à maneira das estéticas tradicionais.  

Ainda que se mantém a mesma linha de desenho coreográfico, o bailarino, que configura a sua obra num tom heraclitiano do movimento, nunca repete os mesmos movimentos, pois, à Heráclito, “não se toma banho duas vezes na água do mesmo rio”, porque tudo flui.  Realmente, é o que edifica o trabalho desse bailarino, qual atitude estético-interpretativa que acontecera já em trabalhos precedentes: tanto nos duetos “Dos Porta”, “Religar”, “Linha di Kommuni” e “Sisni Preto” (que fez com bailarinos europeus, africanos, brasileiros e dos EUA), como também no solo “Igualmento 20” e, agora, em “Kont(r)a Tempu”. Tal atitude artística aponta para um trabalho de permanente escuta e (re)laboração de sentido, convocando-nos a pensar que a arte não deve ser refém dessa velocidade contemporânea (esse konta tempu – o Chronos), sob pena de perder aquilo que Theodor Adorno apelida de espírito da arte, ou seja, a sua força interior: aquilo que de mais filosófico ela possui. 

O esforço artístico de Nuno Barreto em Kont(r)a Tempu, além de tecnicamente elaborado, é realmente vivo exemplo de que a arte contemporânea, em vez de dar respostas fechadas sobre os temas e situações-limite que condicionam a nossa humana condição, cria espaços ao espectador para que ele encontre estas respostas no seu ser-ele-mesmo. E do ponto de vista do artista contemporâneo, o ato criador é ele mesmo um ato de resistir. Assim fez Nuno Barreto em Kont(r)a Tempu: criar, encenar, dançar, resistir; uma obra que esculpe imagens a partir da quotidianidade do povo das ilhas na gesta do seu corpo dançante como corpo que se entrega a um dizer sensível e a um ousar(-se) pensar. A um pensar não calculista que, acriticamente, se submete ao mundo tecnológico e virtual, mas sim a um pensar que critica a si mesmo e acolhe a tecnologia como forma de libertação do humano e de seus processos criativos. 

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Elter Carlos

Elter Carlos

Elter Carlos é professor de Estética e de Filosofia da Educação na UNI-CV. Doutor em filosofia, ensaísta e escritor, é igualmente colaborador do Instituto de Filosofia da FLUP (IF-FLUP), com pesquisas recentes sobre a companhia de dança contemporânea portuguesa Nuiziszobop. Dos seus três livros publicados destaca-se, mais recentemente, “Raiz di Polon. A dança contemporânea caboverdiana como expressão filosófica, Vol.I “(2025).

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