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MAES PARALELAS, PEDRO ALMODÓVAR (2021)
Almodóvar é Almodóvar. Cultuado como um dos realizadores-roteiristas que consolidaram uma estética filmográfica muito autoral, tem na sua imagem de marca o prosaísmo novelístico, uma paixoneta por paletas de vermelhidão, personagens melodramáticas e excêntricas em reviravoltas dionisíacas. E, claro, obsessão por protagonistas femininas. Mães Paralelas, tem uma dose de tudo isto, numa narrativa que costura à la thriller, a história de duas mulheres cujas vidas se intersectam num momento de maternidade. Há um mister numa tensão novelística, entrançados com um subtrama política (a ditadura franco-espanhola) que apesar de bem circunferênciada, entrega um desfecho esmorecido.
KIRIKU E A FEITICEIRA, MICHEL OCELOT (1998)
Expurguei finalmente a minha falta culposa por nunca ter assistido a este mimo de animação. A diegese central é simples e não traz nenhuma extraordinariedade – trata-se da jornada de um herói pela libertação do seu povo. O verdadeiro primor está contido no carisma do personagem minúsculo, prematuro e prodigioso, que nos adocica com o seu estrategismo e bravura, quer no enfrentamento da discriminação que sofre entre seus pares, quer nas contra-investidas à temida e malvada feiticeira Karabá. De pelota, a representação icónica da personagem desconstrói o imaginário de herói ocidental, e nos guia num verdadeiro estudo antropológico, de uma mitologia e vivência africana que não são retratados no cinema infantil mainstream. Fica a vontade de ver os outros filmes da saga.
O LAGOSTA, YORGOS LANTHIMOS (2015)
Querem um filme que retrate um futuro distópico sem pirotecnia sci-fi, com uma inventividade q.b.? Pois tomem O Lagosta. Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2015, de entre outros quantos, é um produto de um roteiro e direção brilhantes, capazes de nos transportar para o insólito, sarcástico e acidamente subliminar. Uma alegoria inusitada é experimentada numa sociedade onde as pessoas são proibidas de…ser solteiras! Um prato cheio para refletirmos sobre os radicalismos, e as bordas do livre arbítrio dentro de um sistema de repressão, a individualidade versus as conveções, e o sentido das relações interpessoais.
A Vida Invisível, Karim Aïnouz
De quem fez Praia do Futuro e Madam Satã, esperamos coisa boa. Adaptado do livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, num Rio de Janeiro tropicalissimamente cinquentista, duas irmãs, muito próximas, se separam por causalidades da vida. A autoridade patriarcal e a (in)submissão feminina ao machismo estrutural e estruturante torneiam toda a trama, que é muito sensível em desenvolver a afetuosidade e a sororidade de uma fraternidade contra-edípica num enquadramento épico muito cuidado. Alguma injustiça (incoerência) no título da obra já que a trama é complemente repartida pelas duas irmãs. Vale, ainda, recompensa pela aparição da fabulosa Fernanda Montenegro.
CAM, Daniel Goldhaber (2022)
Cam (disponível na Netflix) é muito bom em ser aquilo que é – um filme de terror psicológico (ou antes cyber horror, que é o nome dado a este novo subgénero) que nos faz querer ir até ao fim para montar o quebra-cabeça, mesmo que o seu final aberto deixe coisas aqui e ali não amarradas, e algumas personagens se perdem pelo caminho. Madeline Brewer, que promete um futuro brilhante como atriz, foi a escolha certeira já que entrega toda as nuances no papel da Alice, uma CamGirl muito ambiciosa, que nos imerge no mundo dos shows eróticos onlines, através do seu alter-ego Lola. Atual e pertinente, numa era telânica e tecno-mediada, somos convidados a refletir sobre os perigos e as toxicidades do mundo virtual. Com o aumento de ataques cibernéticos, roubo de dados e deepfakes, os nossos avatares pessoais podem sim ser o verdadeiro terror.
Batalha Real, Kinji Fukasaku (2000)
Qual Jogos Vorazes qual quê! Batalha Real já tinha feito as delícias dos amantes de matança gore, num jogo sádico de salve-se quem não morrer! Dá para entender direitinho porque é que este dos filmes prediletos de Tarantino, e o quanto dele está contido em muitas das suas obras, principalmente o sanguinolento Kill Bill. A premissa de distopia política, macabra por si só, de colocar alunos adolescentes de uma mesma turma numa ilha a fim de se aniquilarem só poderia resultar numa espetacularização de carnificina e muito brutalismo sanguinário trash. Mas tá aí uma possível resposta para quem nos tornamos diante do instinto de preservação da vida e de qual o valor real das nossas ligações afetivas diante da sobrevivência…

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.







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