O Empoderamento que nunca precisou de nome – Homenagem à minha Avó Leleta

Num mês em que tanto se fala e tantas vezes se repete, sobre conquistas, feitos e avanços da nova geração, peço licença a todas as mulheres que lutam para que os dias na terra sejam mais justos, para falar dela: Guilhermina Rocha. Para mim, simplesmente, Leleta.
Imagem enviada pela autora

Desde que me entendo por gente, conheci-a viúva. Nunca, porém, sozinha. Era dona de uma força indomável, dessas que não cabem em discursos nem em palanques. Tinha um sentido de comunidade e de natureza que não se aprende, nasce-se com ele, ou então passa-se a vida a tentar imitá-lo.

Da boca desta mulher de João Afonso (interior de Santo Antão) jamais saíram palavras como “empoderamento” ou “sororidade”. E, no entanto, viveu-as todas. Sem cartilhas, sem palcos, sem hashtags. Na construção silenciosa dos seus dias, garantiu que muitas outras mulheres, também elas em luta, tivessem pão na mesa para os filhos e netos. A sua casa era casa de todos. O seu pão não foi só seu.

A sua força não pedia licença, mas também não fazia alarde. Talvez por isso hoje se fale tanto do que ela simplesmente fazia.

Até hoje não há quem a tenha conhecido e não a admire. A sua gargalhada, marca da “Família Glé”, não era apenas som, era presença. Ecoava pelas montanhas que a abraçavam enquanto subia ladeiras, firme, na lida com os animais, como quem conversa com a terra sem precisar de palavras.

O seu “empoderamento” não precisou de nome. Via-se nos seus gestos, ao tocar o tambor nas festas de romaria, mesmo sendo algo reservado aos homens, e ao cantar em casamentos e funerais como quem acompanha a vida do início ao fim. Era o Norte de uma família inteira, a última palavra pertencia-lhe, dita com firmeza e sustentada por um amor que não falhava.

Há silêncios que ensinam mais do que discursos. Há mulheres que fizeram antes de o Mundo aprender a nomear.

A minha avó Leleta vive em mim. Celebro-a todos os dias, não apenas na memória, mas na forma como caminho, falo e escolho.

Que nunca nos esqueçamos de quem abriu caminho com as mãos nuas, para que hoje possamos erguer a voz com microfones. E que, no meio de tantas palavras bonitas, não percamos de vista o essencial,

Porque há forças que não cabem em rótulos, apenas em vidas bem vividas.

 

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Cheila Delgado

Cheila Delgado

"Cheila Delgado escreve como quem sussurra segredos antigos ao vento. Filha da ilha das montanhas - Santo Antão e mora entre palavras, onde as ilhas se encontram, a saudade ganha sotaque e a mulher cabe inteira. Poeta quando quer, cronista quando sente, é das que acreditam que escrever é uma forma de continuar."

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