O luto não se supera

O fátidico dia 7 de Agosto de 1999, em que perdi a minha mãe no acidente de aviação ocorrido na ilha de Santo Antão, fez-me entrar num estado profundo de negação.
Imagem FreePik

Como aceitar que uma mulher com apenas 43 anos, linda, bondosa, saudável, com 4 filhos (que já eram orfãos de pai) para criar, que acabara de conquistar sua casa própria, perdeu a vida num acidente estúpido? Como?

O dia 7 de Agosto amanheceu chuvoso, e eu estava no aeroporto de Ponta do Sol, em Santo Antão, à espera da minha mãe. O avião que ia trazê-la da cidade da Praia era o mesmo que ia me levar. Mal dava para enxergar o aeródromo de tão nebuloso que estava o dia. A demora da chegada do avião deixou-me ansiosa, o meu corpo tremia e fiquei muito enjoada. 

De repente o telefone começou a tocar sem parar, senti no meu coração que alguma coisa tinha acontecido, e o desespero tomou conta de mim. Nunca ninguém precisou me dizer o que tinha acontecido, mas nunca imaginei que eu ficar sem ela.

Na minha cabeça ela se feriu, e eu iria cuidar dela. A espera de uma semana até reconhecerem os corpos, devastou a maior parte da minha vida. Tive soluço e fiz xixi na cama durante esse período de espera desumana. Transformei-me numa zumbi. A única coisa que acalmava o meu coração, era dançar até  à exaustão.  

Fiz várias perguntas e nunca obtive respostas. Revoltei-me com o mundo e com Deus. Onde estava o Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente? Onde estava ele para permitir que 18 vidas se perdessem daquela maeira tão trágica? Eu queria bater em alguém quando diziam que foi a vontade de Deus. Porquê Deus ia querer me castigar, se eu era boa filha?

Com esses questionamentos, ainda tive que lidar com o julgamento de alguns familiares e pessoas próximas.

As pessoas querem que passe logo, “já faz tanto tempo”, “reaja a vida continua”. A verdade é que ninguém gosta de ver a dor das pessoas, isso incomoda. Há que teve a petulância em questionar a minha dor. Eu tive que ouvir: “Mas fulana também perdeu um ente querido no mesmo acidente, e já superou. Fiquei incrédula. Nunca, em caso algum, dê palpites sobre a dor alheia, pois só sabe quem passa por isso. Não temos um botão de liga e desliga, essa cobrança em fazermos e agirmos como as pessoas querem, torna tudo ainda mais doloroso.

Fui bastante pressionada a procurar uma psicóloga e, por muito tempo, fui bastante reticente. Hoje posso garantir que, sem ajuda profissonal, não se consegue prosseguir sozinho (a). Deixo aqui a minha profunda gratidão à minha psicológa, Dra. Belmira Miranda, que, com todo o seu profissionalismo, devolveu-me a vontade de viver, nesta luta desigual que é o luto.

Em questão de segundos abre um buraco sob os teus pés, a vida já não tem sentido, e você pensar em “nunca mais”, nunca mais sentir o cheiro, o afeto, Nunca mais vais comer aquele bolo que só sua mãe sabia fazer, que não vais mais ouvir aquela gargalhada gostosa, faz você morrer um pouco a cada dia.

Com o tempo essa dor traz a depressão, ansiedade, síndromes de pânico, e vem psicólogos, remédios, terapias e nada ameniza, e essa tristeza profunda passa a extravasar de dentro para fora e vem as dores físicas que os médicos e exames dizem não existir e bastava só uma volta para curar tudo. 

Por muitos anos tive pânico em viajar de avião, por ter a “certeza” de que iria acontecer o mesmo comigo. Para superar esse pânico, num ato de coragem ou loucura, em uma viagem ao Rio de Janeiro e fiz um salto de paraquedas. E aquela Miriam que passava muito mal nas viagens, em qualquer sinal de turbulência, passou a ajudar e acolher quem ainda passa por esse sentimento de pânico.

O processo de luto não tem tempo estipulado, cada pessoa sente de uma maneira, pois as dores não cabem em rótulos e não há um manual que nos ensine a passar por esse processo. O luto não se supera, mas a dor que ele precisa expor pode ter  ou ao menos, um enorme alívio. Este processo da travessia da dor do luto requer paciência, e muita dedicação ao autoconhecimento. E é o que tenho feito nesses 26 anos, dedicar-me ao autoconhecimento, e respeitar o meu tempo.

A vida, o tempo e as memórias deram espaço para que a  minha mãe passasse a viver dentro do meu  coração, na finitude da vida: restabelecendo o vínculo afetivo, que para sempre terei com ela. A conexão que tinhamos nunca se perdeu, apesar da ausência física. 

A dor de perder quem amamos, a dor de perder uma mãe, e logo a minha, que além de ter a sorte de ela ser a minha mãe, era também a minha melhor amiga, não é apenas uma dor, é emocionamente devastadora, é uma dor que te consome e te “queima” por inteiro, aonde quer que estejamos ela nos acompanha. A dor da saudade é indescritível.

Sigo honrando o legado que minha mãezinha me deixou. A pessoa que me ensinou o que é amar no seu estado puro.

Apesar de nunca mais sermos a mesma pessoa, seguimos acreditando no reencontro. E o que me traz algum conforto é saber que eu dizia que a amava todos os dias. 

Fiz as pazes comigo mesma, fiz as pazes com o mês de Agosto, na verdade resignifiquei o meu mês de Agosto, e fiz as pazes com Deus.

Para você que está passando pela dor do luto, sinta-se abraçado (a) por mim, e acredite que um dia, no seu tempo, não vai doer como já doeu um dia.

Que a alma de todas as vidas ceifadas naquele trágico acidente, descansem em paz.

Mãezinha, eu te amo, para sempre irei te amar,

Da tua bonequinha, com eternas saudades.

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Miriam Medina

Miriam Medina

Mestre em Ciências Sociais, ativista social e Embaixadora Urbana da ONU HABITAT.

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