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Entre um olhar e outro, faço uma pausa para uma respiração profunda. “É hora de engolir o choro”.
Enquanto isso, alguns jovens acariciam as cicatrizes nos antebraços, marcas da automutilação. Eles dizem que é uma forma de aliviar o sofrimento que carregam de dentro de casa.
Em conversas reservadas, confessam que há mais cicatrizes espalhadas pelo corpo.
– “Se há espaço para mais cortes, eu faço. E quando não houver mais espaço, é porque já morri. Na verdade, não sei se ainda vivo. Como posso viver se não sou amada por quem me colocou no mundo? Eu não pedi para nascer”.
Entre uma conversa e outra, timidamente uma jovem de apenas 13 anos, sussurra com olhar lacrimejante:
– “Todos os dias, ouço da minha mãe dizendo que eu deveria ter sido um aborto. Ela repete, vezes sem conta, que se arrepende de não ter-me abortado. Sou rejeitada pela família, pelos colegas e pelo meu namorado. Não me sinto bonita, não me sinto amada por ninguém. Não sei o que é afeto, não sei o que é amor.”
Esta informação, tirou-me o sentido, e num átimo, não sabia muito bem como reagir diante de uma confissão tão estarrecedora. Mas, ela não percebeu o meu disfarce! Com coragem ela continuou com o triste desabafo:
– “Se ninguém gosta de mim, com quem vou falar?”
– “A quem peço ajuda para tirar essa coisa enorme, que não sei o que é, de dentro de mim?
– “Por que eu nasci, se todos os dias penso em morrer?”
– “Diz-me, como posso amar alguém que me agride com palavras e castigos físicos severos? Diz-me, por favor!”
Após uma confissão como esta, e tantas outras, ao chegar em casa, sinti um turbilhão de sentimentos. É algo avassalador, impossível de descrever com palavras. Volto para o conforto do meu lar, sedenta por um abraço da minha filha de 13 anos. E, ao abraçá-la, lembro-me dos jovens que me pedem um abraço, pois não têm esse afeto em casa. Lembro-me que eles voltarão para seus lares, onde o sofrimento os espera. E a minha impotência grita. Quem me dera poder abraçá-los todos!
As situações de violência intrafamiliar deixam as marcas mais duras, profundas e solitárias que uma pessoa pode carregar pela vida. Meninas e rapazes, ameaçados e anulados, sobrevivem em meio à ansiedade, depressão, medo e culpa. Podemos nos indagar:
– O que leva pais ou adultos responsáveis pelo cuidado, educação e bem-estar de crianças e adolescentes a falharem em seu papel?
– Por que estes escolhem agir de maneira violenta contra seus próprios filhos?
– Qual é o papel da tolerância social na perpetuação desse aspecto na sociedade cabo-verdiana ao longo dos tempos?
Vocês, que são pais, avós ou adultos responsáveis, reflitam: quais seriam as vossas respostas diante de perguntas tão angustiantes e estarrecedoras? Ficar calado não é uma opção. Desviar o assunto, muito menos! Ajudem os seus filhos, dialoguem com eles, mostrem-se presentes. Perguntem, escutem, envolvam-se. Não se omitam diante de qualquer sinal de violência. A responsabilidade de proteger e guiar os jovens é de todos nós. Agir com amor e atenção pode ser a diferença entre o silêncio que destrói e a voz que salva.
Vivemos em uma sociedade onde a violência deixou de ser obscena. Não podemos nos conformar com a normalização e romantização dessa violência que se alastra pelo mundo e continua sendo ignorada.
Uma violência praticada sem armas visíveis, mas que fere profundamente: a violência psicológica, física, moral e sexual. Aproveita-se da vulnerabilidade e fragilidade das vítimas, deixando um rastro de morte na alma, silenciosamente.
Esse silêncio ensurdecedor precisa ser quebrado. É urgente dar voz a esses jovens, escutar seus gritos mudos e agir para transformar suas realidades. A violência não pode ser normalizada, e o silêncio não pode ser a resposta.
Posto isto, e diante do triste caso de uma adolescente que tirou a própria vida, somos lembrados da urgência em abordar a saúde mental com a seriedade que ela merece.
O aumento de casos de suicídio na adolescência é um alerta que não pode ser ignorado. É fundamental que todos nós: família, professores, profissionais de saúde e a sociedade como um todo, assumamos o compromisso de promover a saúde mental de forma ativa e consciente.
Cuidar da saúde mental envolve criar um ambiente onde adolescentes e jovens em perigo se sintam acolhidos, compreendidos e apoiados. Precisamos estabelecer uma escuta ativa, oferecer espaços seguros e combater práticas nocivas. Só assim poderemos interagir de forma harmoniosa e contribuir para uma adolescência saudável e equilibrada, onde vidas não sejam perdidas para a dor silenciosa
Mestre em Ciências Sociais, ativista social e Embaixadora Urbana da ONU HABITAT.







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