
- PUB

A conversa começou com o entusiasmo e a emoção dos preparativos para a celebração dos 50 anos da independência de Cabo Verde, mas rapidamente ganhou outra dimensão. Foram trazidos à roda, memórias marcadas pela coragem, pela saudade dos que deixaram na terra natal. E, sobretudo, por um orgulho inabalável de serem cabo-verdianos.
Cada um com a sua vivência, mas todos com histórias que se cruzavam no reconhecimento da identidade, na consciência patriótica e sentimento de pertença que nos destacam, de forma única, como cabo verdianos. As histórias revelaram como cada um mantém viva a ligação à nossa terra. Quando possível, um bom funaná, um pé de batuco e uma morna cantada ao som do violão para animar.
As senhoras relataram como chegaram a Moçambique. Num crioulo doce de ouvir, com toques de português, partilharam lembranças que ainda aquecem o coração. O à-vontade com que falavam e o brilho no olhar revelavam um orgulho que não se apagou com a distância, nem se dissolveu entre as fronteiras. E no fundo de cada história, parecia bater a certeza já cantada pelo nosso Ildo Lobo “Ma N ta xinti filis di ter nasidu kabuverdianu” (Mas eu sinto-me feliz / Por ter nascido cabo-verdiano). De facto, é gratificante sentir o poder da identidade de um povo. Foi bonito sentir a pertença e o orgulho que unia todos.
A dona Cecília Monteiro, de São Vicente, contou que saiu de Cabo Verde, rumo a São Tomé, numa leva de mulheres contratadas para trabalhar nas roças. Ficou lá seis anos, casou-se, teve filhos e em 1963 mudou-se com o marido e os filhos para Moçambique, onde vive até hoje. Entre risos ela partilhou: “apaixonada e levada pelo amor, nem perguntei como voltaria à minha terra para ver a minha mãe… afinal, Moçambique era longe.” Infelizmente, a Dona Cecília nunca teve a oportunidade de regressar a Cabo Verde e lamenta: “Perdi a minha mãe e desde que fiquei viúva, há trinta anos, perdi completamente o contacto com os familiares e principalmente o meu irmão”.
A dona Elísia Varela, natural de Achada Lém, em Santiago, chegou a Moçambique em 1957. Também por São Tomé. Ela conta que perdeu os pais entre 1940 e 1947 e foi criada por um tio. Nesta altura, Cabo Verde vivia um momento atípico e a vida era extremamente difícil. “Em Cabo Verde tinha fome, não tínhamos nada” – disse comovida. Por isso, escolheu buscar a sobrevivência em São Tomé, onde poderia trabalhar.Em São Tomé construiu a sua família, teve filhos e depois abraçou a oportunidade de mudar-se para Moçambique. Ela lembra com um sorriso nos lábios da oportunidade que teve de regressar a Cabo Verde depois da independência, revisitar os familiares e os lugares que ela gostava. Lembra-se bem de como se sentiu: “como um peixe na água”.
A dona Conceição saiu de Cabo Verde aos 25 anos de idade, em 1967, ainda muito jovem — e “bonita”, como fez questão de sublinhar com um sorriso nos lábios. Mas partilhou também lembranças dolorosas. Recordou a queda do armazém de assistência alimentar em 1948, que vitimou mais de 400 pessoas, incluindo familiares próximos. O seu pai já estava em Moçambique a trabalho e, após a perda da família, decidiu trazê-la para cá. Ela lembra que veio de “boleia” no avião da força aérea, a pedido do seu pai. Tal como as amigas, a Dona Conceição casou-se, teve filhos e construiu a vida longe da terra natal. Em 1985, teve a oportunidade de regressar a Cabo Verde com um grupo de emigrantes. Foi recebida com carinho, como se o tempo não tivesse passado. Lembra com ternura das festas de tabanca, dos banhos na prainha, e do calor da sua ilha.
Diferente das amigas, a dona Matilde saiu de Cabo Verde, ainda pequena, com apenas três anos. Como tantos outros cabo-verdianos, em 1948, os seus pais partiram, com ela e os irmãos, em busca de uma vida melhor. Para ela, o tesouro das lembranças era tudo o que os pais lhe tinham contado — memórias herdadas que, com o tempo, se tornaram suas. As palavras da dona Matilde carregavam o poder da transmissão de identidade que muito caracteriza o povo cabo-verdiano além-fronteiras. Na verdade, uma herança invisível que atravessa gerações, mesmo em terras distantes. Quem olha para a sua indumentária e escuta o seu “criolo fundo” não tem dúvidas do povo que ela representa.
Já o Alexandre, com marcas de uma geração que viveu um Cabo Verde de esperança, partilhou uma experiência diferente da das senhoras. Chegou a Moçambique em 2005, movido pelo sonho de conquistar melhores oportunidades de estudo, abraçou um convite institucional para estudar em Moçambique onde formou-se e criou raízes. Natural da ilha do Fogo, o Alexandre chegou a Moçambique com a mala cheia de livros e expectativas. Veio para estudar, mas foi ficando. Fincou raízes, formou família e aqui ficou. Sempre que pode, regressa de férias à sua terra natal, Atualmente, como presidente da Associação, ele procura manter viva a chama da caboverdianidade entre os mais novos e a comunidade no geral.
Com o coração cheio, partilhei também a minha trajetória até Moçambique. Mesmo em tempos e condições diferentes, as nossas histórias uniam-se num laço invisível de propósito, sentimento de pertença e saudade que nos aproxima da nossa terra.
A conversa foi longa e cheia de afeto. Mas entre todas as partilhas, uma preocupação ressoou com mais força e trouxe à tona um receio marcante de muitos cabo-verdianos, “antigos em Moçambique”, não poderem comprovar formalmente a identidade que tanto enaltecem, por falta da documentação actualizada. “Infelizmente, com o passar dos anos, muitos passaportes ficaram caducados e, com eles, surgem barreiras como limitações no acesso a serviços, viagens e até ao reconhecimento da própria identidade” – partilharam com tristeza. Mas mantêm a esperança de ver superadas as dificuldades para renovar a documentação caboverdiana, com uma resposta favorável do governo de Cabo Verde ao pedido de isenção das taxas de renovação dos passaportes.
Através deste texto, encaminho as “mantenhas” enviadas com carinho para todos em Cabo Verde. Apesar das dificuldades, foi reconhecido e com gratidão todo o apoio dado pelo governo de Cabo Verde, mas pediram “uma especial atenção à questão da falta de documentação”.
Porque ser cabo-verdiano não tem prazo — nem no coração, nem no papel.

Cabo-verdiana, com experiência internacional na área de promoção da saúde pública e mudança de comportamento social. Apaixonada por iniciativas que promovem hábitos saudáveis e impulsionam o desenvolvimento humano. Acredita no poder de pequenas ações para transformar comunidades e inspirar mudanças duradouras.







Site agregador de notícias e conteúdos próprios e de parceiros, com enfoque em Cabo Verde e na Diáspora, que quer contribuir para uma maior proximidade entre os cabo-verdianos.
+238 357 69 35
geral@balai.cv / comercial@balai.cv / editorial@balai.cv



