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Dias em que o silêncio incomoda, as notícias desgastam, o trabalho sufoca e a vida parece exigir mais do que aquilo que temos disponível para dar.
E, curiosamente, é muitas vezes nesses dias que a corrida deixa de ser apenas exercício físico e passa a ser refúgio.
Vivemos numa era em que quase tudo exige resposta imediata. Somos pressionados a produzir, a estar disponíveis, a parecer fortes, motivados e emocionalmente equilibrados o tempo inteiro. Mas a verdade é que ninguém vive permanentemente bem.
Há momentos de dúvida, frustração, ansiedade e cansaço emocional que não se resolvem apenas com frases motivacionais ou com a tentativa constante de “ser positivo”.
Talvez por isso tanta gente tenha começado a correr.
Não apenas para emagrecer. Não apenas pela estética. Mas porque, em algum momento, descobriu que correr ajuda a respirar melhor — e não estou apenas a falar dos pulmões.
Existe algo profundamente terapêutico no ato de colocar os ténis, sair de casa e começar a correr sem precisar explicar nada a ninguém. A corrida cria um espaço raro de autoconhecimento. Sem notificações. Sem exigências externas. Sem personagens sociais. Apenas o som da respiração, o impacto dos pés no chão e os pensamentos que, aos poucos, começam a organizar-se.
Lembro-me de quando comecei a pensar seriamente em correr. Durante meses procurei companhia. Convidei pessoas, esperei disponibilidade, tentei alinhar horários.
No fundo, acreditava que precisava de alguém ao meu lado para começar. Como se correr sozinho fosse estranho ou incompleto.
Até que um dia percebi uma coisa simples: porquê que eu precisava correr com alguém? Calcei os ténis e fui sozinha.
E talvez tenha sido uma das decisões mais importantes daquele período da minha vida.
Hoje, sinceramente, já nem me imagino dependente de companhia para correr.
Uma boa playlist, os meus pensamentos e a estrada à frente tornaram-se suficientes. Descobri que a corrida também é isso: um espaço de independência emocional. Um momento em que deixamos de esperar pelos outros para começar aquilo que nos faz bem.
Muitas vezes adiamos mudanças importantes porque estamos à espera da pessoa certa, da motivação perfeita ou da companhia ideal. Mas algumas jornadas precisam mesmo de começar a sós.
E a verdade é que correr sozinho não significa solidão. Pelo contrário. Para muitas pessoas, é exatamente aí que nasce uma das conexões mais importantes: a relação consigo mesmas.
Curiosamente, esta mudança também começa a refletir-se nos hábitos sociais dos mais jovens. Cada vez mais pessoas trocam noites centradas no álcool e nos excessos por estilos de vida mais equilibrados.
Em várias cidades, incluindo Lisboa, grupos de corrida cresceram tanto que alguns bares e espaços passaram a adaptar-se a esta nova realidade, organizando encontros e convívios após corridas coletivas. Uma espécie de “festa” diferente, onde o foco já não é apenas beber ou virar a noite, mas socializar, cuidar do corpo e da mente e sentir-se bem.
E, sinceramente, é bom assistir a essa mudança.
A ciência já confirmou aquilo que milhares de corredores sentem na prática: correr reduz níveis de stress, ajuda no combate à ansiedade, melhora o humor e contribui significativamente para a saúde mental. Mas existe uma dimensão emocional da corrida que nenhum estudo consegue medir totalmente. É aquela sensação silenciosa de vitória depois de um dia difícil.
O orgulho discreto de continuar, mesmo cansado. A prova íntima de que ainda conseguimos avançar, um passo de cada vez.
Porque correr ensina muito sobre a vida.
Ensina que o início quase sempre custa. Que nem todos os dias serão bons. Que haverá momentos em que vamos querer desistir a meio do caminho. Mas ensina também que o corpo adapta-se, a mente fortalece-se e aquilo que parecia impossível ontem pode tornar-se rotina amanhã.
Na corrida, como na vida, não se trata apenas de velocidade. Trata-se de resistência.
E há algo particularmente bonito em perceber que, enquanto o mundo lá fora exige perfeição, a corrida aceita-nos exatamente como estamos naquele dia. Cansados, frustrados, felizes, perdidos ou esperançosos. Ela apenas pede que continuemos em movimento.
Em Cabo Verde, onde tantas pessoas vivem diariamente sob pressão económica, emocional e social, talvez devêssemos falar mais sobre o desporto como ferramenta de saúde mental e não apenas como competição. Nem toda corrida precisa de medalha. Nem todo corredor procura pódio. Às vezes, a maior conquista é simplesmente conseguir sair de casa e encontrar alguns minutos de paz no meio do caos.
Correr não resolve todos os problemas da vida. Mas, em muitos dias difíceis, ajuda-nos a suportá-los melhor.
E isso, por si só, já transforma completamente o significado de uma corrida.

É esposa e mãe licenciada em Marketing Turístico que começou a sua carreira profissional como jornalista. Foi assessora de comunicação e marketing numa instituição pública, mas a sua verdadeira paixão é a investigação criminal. Hoje é uma emigrante que se prepara para mudar totalmente de área - a advocacia.







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