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Certo dia, ao ser contactado pela Cristina Ferreira através de uma mensagem no Messenger, a me perguntar se aceitaria ser um dos apresentadores de um livro que ela e o Ricardino Pedro tinham acabado de escrever sobre o caso Monte Txota, respondi logo, sem saber ainda do teor da obra:
“Não sei qual é a abordagem, e porque pensaram em mim para a tarefa. De todo o modo, não posso recusar.”
Não podia recusar! Não por causa do tema em si, aliás só viria a ter contacto com o livro dias depois. Aceitei logo pelo facto de ser uma obra escrita por dois jornalistas. E aqui excluo qualquer tendência corporativista.
Gosto, particularmente, de ler jornalistas. E nem me refiro a matérias jornalísticas. A literatura mundial é farta em obras de autores que são ou foram jornalistas e, regra geral, proporcionam leituras fascinantes.
Pronto, aceitei!
Mal recebi o ficheiro, mergulhei na leitura. E o começo agarrou-me “pelo peito da camisa” para não mais me largar!
“O carro parou em frente à estação dos bombeiros, próximo
do centro da cidade da Praia. O passageiro pagou o frete e saiu.
Pelo espelho retrovisor, o taxista apercebeu-se da entrada de um novo
ocupante. Um cheiro intenso invadiu o habitáculo do automóvel sem
ar condicionado, o cheiro de alguém que, de certeza, não tomava banho
há vários dias.”
Este começo me cheirou a romance! Mas à medida que ia lendo, comecei a mudar de ideia. Estou a ler uma grande reportagem, pensei.
Quando terminei, ficou vincada a minha certeza de que esta obra, escrita por dois jornalistas, mais não era do que uma espécie de série de reportagens sobre o Massacre do Monte Txota. Sim, uma série de reportagens que contornam o ângulo mais óbvio do acontecimento – o massacre em si, as suas causas – e vai ao encontro da dimensão humana, dando a conhecer a vida e os sonhos daqueles que foram mortos e dos que ficaram destroçados, os familiares.
“Monte Txota: Um Massacre em Cabo Verde” é, pois, uma chamada de atenção, um grito contra a indiferença, contra o esquecimento, deliberado ou não, do Estado, de instituições, da sociedade no geral. Não diria uma espécie de “ensaio contra a cegueira”, mas pode ser entendido como um tratado contra a indiferença, contra a falta de empatia.
Passados 10 anos desse massacre, quem ainda se lembra(va) do caso Monte Txota, até ser dado à estampa este livro?
Conscientes ou não deste propósito, Cristina Ferreira e Ricardino Pedro acabam por fazer-nos refletir sobre aquilo que em jornalismo chamamos follow up das notícias. Ou seja, o processo de acompanhamento e atualização de informações sobre um determinado evento, assunto ou notícia divulgada anteriormente.
Do meu ponto de vista, o follow-up não é ainda um processo suficientemente explorado entre nós. Julgo que, de uma forma geral, temos pouca cultura de seguimento dos eventuais desenvolvimentos de matérias que semanas ou meses antes tinham dominado a atualidade e deixaram pontas soltas.
Uma mãe de um dos soldados morre sete ou oito anos depois da tragédia. Parte ainda nova (50 e poucos anos), mergulhada num profundo desgosto. Ao restante do agregado familiar é-lhe cortado a pensão de sangue. Porque quem estava inscrita era a mãe do falecido. Ela partiu e deixou filhos menores.
Há um pai que se refugia no álcool ou uma irmã que telefona durante seis meses seguidos ao irmão morto, porque ela não viu o seu ente querido. Não se abriu o caixão logo, para todos os efeitos, ela não sabe se aquela urna que esteve por uns 15 minutos em casa dos familiares trazia o corpo do seu mano ou se de uma outra pessoa.
Há uma mulher que perde o marido e fica sozinha com duas crianças. Na escola, um desses meninos, profundamente ligado ao pai, começa a ter comportamentos diferentes, fica muito agitado. A professora, impaciente, sugere que se mande a criança de volta para o pré-primário.
Esta obra vem (re)despertar-nos e relembrar-nos que, muito recentemente, um crime hediondo interrompeu, brutalmente, a vida e os sonhos de 11 indivíduos, 9 cabo-verdianos e dois espanhóis. Desses, oito eram soldados todos ainda sem chegar à casa dos 30 anos. E quase todos oriundos de famílias carenciadas, que viram no serviço militar uma via para prosperarem, podendo deste modo passar a ajudar suas famílias.
Olhando para outras dimensões do livro, para mim é muito evidente as marcas que “denunciam” a pena de dois autores jornalistas, e de uma agência de notícias, habituados a um padrão de profundidade e exigência peculiares.
Ora, quando além dos factos, se tem a preocupação de esmiuçar todo um contexto (ou contextos) com a devida profundidade, esse tipo de conteúdo é a espinha dorsal de uma cobertura jornalística de qualidade. Ainda por cima nos dias de hoje, em que há essa profusão de informações nas plataformas digitais, um “bombardeamento” tantas vezes sem qualquer tipo de cuidado, seja com o rigor, seja com a ética.
Se uma agência de notícias é uma fornecedora de conteúdo jornalístico aos órgãos da Comunicação Social, neste livro temos pistas para várias reportagens. Porque, mesmo passados 10 anos, há ainda tanta matéria por explorar!
A obra acaba por ser, do meu ponto de vista, uma série de reportagens cozinhada em lume brando, sem a pressa imposta pelo imediatismo, sem a urgência de entregar a matéria quase em tempo real, uma condição inerente ao jornalismo de agência.
Sem desviar o foco do evento, cujo epicentro se situou no cume de uma montanha, a obra vai tocando, de forma subtil e perspicaz, em várias questões. E com muita subtileza, os dois autores expõem vários problemas. Entres eles, a pobreza e a falta de emprego, o abandono escolar, a gravidez na adolescência, o pensamento machista ou mesmo a emigração e consequente desestruturação familiar.
Em relação a este último ponto é significativo notar, por exemplo, que o autor do massacre se viu, ainda criança, longe da mãe. Ela emigrou para os Estados Unidos e o filho nunca mais a reencontrou, até praticar os crimes.
Sem pai por perto, ficou a andar de casa em casa, de família em família, às vezes no Fogo com o avô, outras vezes na Praia com o padrasto ou com tios neste ou naquele bairro. E depois numa casa com outros dois irmãos.
Em busca dos familiares das vítimas do massacre, os autores levam-nos a vários espaços geográficos de Cabo Verde, de norte a sul. Aliás, a tragédia atravessou o arquipélago de um extremo ao outro, ao ceifar vidas de jovens de Santo Antão, São Vicente, Santiago e Brava.
O livro da Cristina Ferreira e do Ricardino Pedro leva-nos a subir os carreiros e caminhos vicinais do verdejante vale de Caibros, na Ribeira Grande de Santo Antão. Em São Vicente, evoca a dinâmica cultural da cidade do Mindelo. Dani, uma das três vítimas civis, era de São Vicente e estava ligado à música e ao teatro.
Na ilha de Santiago, sentimo-nos em vários locais da Cidade da Praia. No Monte Vermelho, por exemplo, até nos leva até a passagem do naturalista Charles Darwin por aquela elevação durante a sua famosa expedição no século XIX, e que veio a culminar com a sua obra “A Origem das Espécies”.
Da capital do país em direção ao interior da ilha, o livro transporta-nos para a pacatez da zona de Nora, em São Domingos. Depois, já no concelho de Santa Cruz, leva-nos até Salina, à entrada de Pedra Badejo, mas também Terra Branca e Santa Cruz, ambos no concelho com o mesmo nome deste ultimo sítio. São todos locais de onde era naturais alguns dos soldados mortos.
No Fogo, sentimos a madorra dos dias em dois lugarejos, Miguel Gonçalves e Curral d’Ochô, situados a cerca de uma dezena de quilómetros da cidade de São Filipe. São as zonas das origens de Entany, o autor do massacre.
É assinalável a subtileza com que, ao longo da narrativa, os autores nos fazem chegar a cada um desses lugares, nunca perdendo o fio condutor e o epicentro da obra. Mesmo na dor, mesmo no meio de um tema macabro, Cristina Ferreira e Ricardino Pedro conseguem levar o leitor à instantes de contemplação quando, nas descrições, focam em pequenos pormenores, interessantes e curiosos.
“O cemitério até é um sítio aprazível (…) Para ir lá, é preciso
abandonar a estrada principal, pouco antes de chegar à cidade, e
percorrer meia dúzia de metros de uma calçada impecavelmente
alinhada e de onde como que emana um cheiro a obra nova. O
mesmo esmero nota-se para lá do muro branco que rodeia os quatro
talhões de campas, que formam um retângulo avermelhado, sulcado
por carreiros de circulação para acesso às sepulturas, marcadas com
cruzes de madeira pintadas. As cores dão indicações sobre quem por ali repousa: azul para os rapazes solteiros, preto para homens casados, cor-de-rosa para as mulheres e branco para as crianças.”
Até em ambientes pesados, como num dos cemitérios onde descansam restos mortais de um dos soldados, se pode ver beleza. Sensibilidade jornalística, pura!
Se eu estivesse na redação de um jornal e me fosse pedido para acrescentar um subtítulo a esta obra esta “série de reportagens”, esse subtítulo, para mim, seria:
Para nunca mais se esquecer das 11 vítimas, apesar de certos silêncios!
Silêncios que teimam em fazer escola neste país! Os autores elucidam-nos acerca das dificuldades que passaram com as constantes “negas”, com os silêncios de instituições e/ou entidades cujas colaborações se revelariam fundamentais para a produção da obra.
A cultura do silêncio, ou de secretismo em torno (sobretudo) de questões que incomodam, continua a fazer escola neste país. E “não há jornalismo de investigação em Cabo Verde”, dizem tantas vezes por aí! Frequentemente, sai da boca de quem, depois, se remete ao silêncio
Benvindo Neves é jornalista da Radiotelevisão Cabo-verdiana desde 2010. Atualmente, exerce funções a nível da coordenação do Desporto na RTC, mas tem interesses em outras áreas como a cultura, jornalismo de viagens, entre outras.







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