Macaronésia: Um Conceito a Reforçar e a Valorizar

A Macaronésia há muito que não se limita à extraordinária diversidade biológica que, por si só, já representa um património natural inestimável. É, simultaneamente, uma região cuja identidade geográfica e cultural confere singularidade, mas também suscita desafios típicos de territórios insulares. Contudo, é precisamente esta condição que encerra um vasto leque de oportunidades que ainda carecem de exploração e articulação concertada.

Mais do que uma partilha de ecossistemas e espécies endémicas, a Macaronésia configura-se hoje como um conceito estratégico capaz de gerar benefícios concretos em múltiplos setores. A sua promoção pode catalisar iniciativas culturais, educativas, económicas e turísticas que, se forem devidamente coordenadas, permitem maximizar o potencial de cada arquipélago e criar valor sustentável para todos os seus habitantes. A dimensão insular deixa de ser apenas um entrave e transforma-se numa vantagem competitiva, desde que haja visão, planeamento e cooperação efetiva.

Importa sublinhar que a própria União Europeia reconhece a Macaronésia como um território especial há largos anos. Um dos instrumentos que evidencia este reconhecimento é o programa MacInterreg, que disponibiliza recursos e oportunidades significativos para projetos de cooperação inter-arquipélagos. Na minha opinião, este potencial tem sido subaproveitado, em parte devido a prazos curtos e exigências específicas, mas pode e deve ser utilizado de forma estratégica para consolidar iniciativas que reforcem a coesão, a sustentabilidade e o desenvolvimento da região.

Paralelamente, foram retomadas, após vários anos de pausa, as Jornadas Parlamentares do Atlântico, constituindo uma oportunidade ímpar de reforçar a cooperação e caminhar de forma unida em torno do conceito Macaronésia. Estas iniciativas mostram que há caminhos institucionais e políticos que podem e devem ser aproveitados para promover uma visão integrada e sustentável da região.

É neste espírito que, enquanto cônsul honorária de Cabo Verde na Região Autónoma da Madeira e presidente da Associação de Promoção da Macaronésia, tenho defendido o aprofundamento deste conceito. Acreditar na Macaronésia não é apenas reconhecer o seu património natural, mas assumir um compromisso com uma estratégia de desenvolvimento integrada, capaz de gerar retornos sociais, culturais e económicos tangíveis. Cabo Verde, com a sua história, cultura e ligação geográfica à região, tem a ganhar, assim como todos os demais arquipélagos, se se investir na apresentação e implementação de projetos estruturados, na valorização da identidade comum e na promoção de ações conjuntas que reforcem a visibilidade internacional da região.

No contexto da valorização da Macaronésia e da promoção de projetos estruturados que reforcem a cooperação inter-ilhas, torna-se ainda mais evidente a importância de uma representação diplomática sólida de Cabo Verde em Portugal. Um embaixador permanente seria um elemento-chave para potenciar relações institucionais, apoiar iniciativas estratégicas e assegurar que os interesses de Cabo Verde sejam defendidos e promovidos de forma consistente, sobretudo em áreas culturais, económicas e de cooperação regional. A presença de um embaixador contribuiria decisivamente para dar seguimento a projetos como os da Macaronésia, transformando oportunidades em resultados concretos para Cabo Verde e para toda a comunidade macaronésica.

É, portanto, fundamental que a atenção e o cuidado dedicados à Macaronésia não se limitem a discursos ocasionais. Importa criar mecanismos sólidos de cooperação, apoiar projetos inovadores e estimular a participação de entidades públicas e privadas, de modo a assegurar que esta visão se traduza em realidade prática e sustentável. O futuro da Macaronésia pode ser um exemplo inspirador de como a coesão regional e a valorização do património, em sentido amplo, podem resultar em benefícios concretos e duradouros, não apenas para cada ilha isoladamente, mas para toda a comunidade macaronésica, incluindo Cabo Verde, que tem um papel natural e relevante neste ecossistema atlântico.

A Macaronésia é, assim, mais do que um conceito geográfico ou ecológico: é uma oportunidade para olhar para além das dificuldades inerentes à condição insular, para reconhecer o potencial coletivo e para investir em projetos que promovam a prosperidade, a cultura, a educação e a sustentabilidade em toda a região. O momento é agora, e a iniciativa de consolidar esta visão depende de todos nós, com atenção, estratégia e determinação.

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Susana Gramilho

Susana Gramilho

Cônsul Honorária de Cabo Verde na Região Autónoma da Madeira, Presidente da Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira e Diretora Pedagógica da Associação Amigos da Diáspora e Emigrantes Madeirenses, mestre em Educação, pós-graduação em MBA/Gestão,cronista do Jornal da Madeira, escritora, encantada por música, livros e pela prática desportiva. Apaixonada por Cabo Verde, pelo seu povo, pela sua rica cultura, pelas mornas, empenhada em aprender crioulo e em estreitar relações entre a Madeira e Cabo Verde e na promoção da Macaronésia.

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