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Eu não fui aquela menina que sonhou com casamento, casa, marido e filhos, ou simplesmente a sonhada estabilidade matrimonial. Não fazia sentido para mim, apesar de ser filha de um casamento que perdura até hoje, e que, para mim, é um exemplo de amor, de parceria e de compromisso.
Meu futuro ideal era habitado por uma mulher realizada profissionalmente, sem abrir mão da rebeldia, independência e irreverência que me caracterizavam e que eu tanto cultivava. Quem cruzou comigo nas minhas fases de adolescente e “pré-adulta”, dificilmente me imaginou como esposa e mãe, passando pela vida de forma tranquila.
Confesso: até me casar, a minha relação mais longa foi com a empresa onde trabalhava.
E casei-me… E, como nunca sonhei como deveria ser, o meu casamento está a ser construído, no dia a dia, para ser aquilo que eu e meu marido queremos que seja, a cada momento. Na verdade, não tive consciência que estava a fazer uma escolha ativa, muitas vezes brinco que fui intimada.
Durante muito tempo, achei que a relação era movida apenas pelo sentimento, pelo que, quando havia desentendimento, ou a chama diminuía de intensidade, não via margem para novas tentativas. Não compreendia os casais que davam segundas chances.
Não sei precisar o momento, mas uma leitura acendeu a luz: amar não é apenas um sentimento; amar é, também e sobretudo, escolher.
Quando falamos de casamento ou de qualquer união “estável”, falamos de pessoas que, por decisão, resolvem juntar os trapinhos para um propósito comum, seja ele qual for.
No quotidiano, somos confrontados com uniões, traições e separações. Faz parte da natureza humana buscar parceiros, mas também atalhos ou alívios para dores ou medos momentâneos.
Acredito que é preciso desmistificar que não há príncipes, nem princesas, nem castelo; há aquilo que se predispõe a construir. Somos todos tóxicos e também somos todos “alecrins-dourados”, à nossa maneira. O defeito está em nós, como também está no outro. Sentar e ficar à espera que o outro adivinhe e satisfaça nossas necessidades e desejos, ou perceba o silêncio, é destinar a relação ao fracasso.
Amar significa, definitivamente, combinar o sentimento com a ação. É o que acredito.
Amar é um ato de coragem, é ter a coragem de se sentir vulnerável e demonstrar essa vulnerabilidade ao companheiro, comunicar o bom, e principalmente o que nos incomoda, de forma livre, e segura. Amar é uma dança, onde os parceiros decidem que querem, juntos, dançar a mesma música e fazem a “magia” acontecer.
Quem acredita que amar é só sentir, cede à primeira dúvida e ao primeiro desafio. Facto!
É preciso encarar a verdade desconfortável: nunca estaremos 100% satisfeitos 100% do tempo. O jardim do vizinho parece mais bonito porque não temos de cuidar das plantas, regá-las nem adubá-las. Procurar no outro a plenitude, que não existe, é um ciclo vicioso e a receita certa para a frustração.
A tentação surge de diversas formas: é a vontade de viver a “liberdade” outra vez, o anseio de voltar atrás, ou a busca, no outro, daquilo que momentaneamente falta no parceiro, ou simplesmente por medo ou necessidade de validação.
O segredo não está em fugir, mas em construir e aceitar que o relacionamento perfeito não existe.
Manter uma relação não é uma viagem suave por uma estrada maravilhosa com pôr do sol e arco-íris; isso são histórias da carochinha. A união é mais como as estradas aqui da nossa cidade da Praia: esburacada, dinâmica (cada dia há um novo buraco) e que exige constante atenção.
Diante dos buracos, temos de decidir qual defender e qual enfrentar. Os desafios são diários, e é fundamental escolher: escolher entre o “eu”, o “tu” e o “nós”, definindo o que é prioridade no momento. A receita de ontem pode não servir para hoje. É algo dinâmico e, por vezes, desafiador, sim, mas é também maravilhoso quando as partes, mais do que namorados ou cônjuges, são parceiros, uma equipa que se apoia.
O dia a dia tende a roubar-nos a capacidade de olhar para o companheiro e reconhecer a “chama” do início ou o porquê de ter iniciado. É fácil querer deixar tudo para trás por causa de um desafio (atenção, também reconheço que é igualmente perigoso manter uma relação só por manter).
Mas, para aquela relação que vale a pena e a galinha inteira, acredito que o segredo está em saber o que escolher em cada passo, a cada desafio, a cada dia.
Todos os dias, escolher amar, construir, reparar, fazer o que é preciso para manter o que foi escolhido como sendo o propósito.
O amor que perdura é aquele que escolhemos e construímos, dia após dia. É como o tango: dança-se a dois, exige esforço e confluência de vontades
Advogada, Gestora, mãe de 2 adolescentes e 8 animais, adora estudar e escreve às vezes para acalmar a alma inquieta que é.







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