Festival Kontornu: Resenha Crítica “Dançando Villa”

Uma Resenha Crítica do docente Elter Carlos no âmbito do Festival Kontornu.

O espetáculo Dançando Villa, fruto da criação coreográfico-performativa da Companhia Curitiba Cia de Dança, uma referência no panorama da dança contemporânea brasileira, foi apresentado no âmbito da 4ª edição do Festival Kontornu, precisamente no Auditório Nacional Jorge Barbosa, cidade da Praia, a 11 de maio de 2026, mediante um clima festivo e prenhe de emoções, visivelmente manifestando-se nos gestos do atento, sensível e intercultural público presente. 

Contando com um elenco de nove bailarinos, este espetáculo de dança contemporânea, sob a direção de Nicole Vanoni e coreografia de Rosa Antuña, inspira na vida e obra de Heitor Villa-Lobos (O Índio de Casaca), um grande compositor, violoncelista, maestro, violinista e pianista brasileiro; um dos compositores sul-americanos mais conhecido de todos os tempos. 

Muitos dos elementos que traduzem a criação musical e estética de Heitor Villa-Lobos mostraram-se visíveis no espetáculo de Dançando Villa; um espetáculo que consegui contagiar o multifacetado e intercultural público do auditório da Praia. Um público que se manteve emocional e sentimentalmente re-ligado durante a duração dessa performance coletiva que, em verdade, se insurgiu como a manifestação de uma estética da perceção coletiva, mantendo a viva conexão entre espectador e palco. Um palco onde o corpo performativo dos bailarinos conjuga a luz de sua interioridade e de seu misticismo com a exterior iluminação e sonoplastia tecnicamente trabalhadas: fez-se esculpir em gesta de beleza; em forma(s) e em construções de sentido atribuídos pelo público atento. 

O forte misticismo, pluralismo e presença de rituais e demais símbolos vivos da cultura brasileira (re)fazem-se nessa peça performática de Dançando Villa mediante o dom da criação artística como celebração, (re)invenção e unidade do diverso da experiência humana que carateriza a alma desse povo singular.  Uma alma da cultura que Heitor Villa-Lobos soube trazer à luz ao unir a sofisticada música erudita com as raízes profundas da cultura popular brasileira. E Dançando Villa, ao (in)corporar no seu gesto de fazer obra de arte no corpo essa unidade de contrastes (vertentes: africana, indígena, europeia …) que dá forma a cultura brasileira (em todas as suas latitudes geográficas e humanas) enobrece-se em qual projeto humano educativo, (trasns)formador, humanista, em plena harmonia com a categoria estética do belo que, indelevelmente, transforma dança em pensamento encarnado e performativo.

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Elter Carlos

Elter Carlos

Elter Carlos é professor de Estética e de Filosofia da Educação na UNI-CV. Doutor em filosofia, ensaísta e escritor, é igualmente colaborador do Instituto de Filosofia da FLUP (IF-FLUP), com pesquisas recentes sobre a companhia de dança contemporânea portuguesa Nuiziszobop. Dos seus três livros publicados destaca-se, mais recentemente, “Raiz di Polon. A dança contemporânea caboverdiana como expressão filosófica, Vol.I “(2025).

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