Festival Kontornu: Resenha Crítica “CV Matrix”

Uma Resenha Crítica do docente Elter Carlos no âmbito do Festival Kontornu.

CV Matrix é uma performance de dança contemporânea da autoria da sobejamente conhecida e internacionalmente premiada Companhia de dança Raiz di Polon. Foi exibida no âmbito do Festival Kontornu, a 11 de maio, no auditório nacional Jorge Barbosa, Cidade da Praia. Uma peça coreográfico-performativa que (re)elabora artisticamente dimensões transversais da cultura e história cabo-verdianas, em integral e interartístico diálogo com a música, as danças tradicionais, a poesia, as tradições e as narrativas literárias da cabo-verdianidade.

Contando com um elenco que ronda cerca de dez bailarinos (Bety Fernandes, Mano Preto, Rosy Timas, Nuno Barreto, Zeca, Da Rosa, Edu Guedes, Luciény Kaabral, Júlia Dias), o espetáculo dialogou com a real presença da música de Orlando Pantera, Mário Lúcio Sousa, Sara Tavares, Eugénio Tavares, e de outros elementos como Jeff Hesnney. A coreografia e cenografia estiveram a cargo do bailarino Mano Preto.

Ainda que esta peça homenageia a própria história e cultura cabo-verdianas através do tema da emigração e da celebração de marcos importantes como a Independência Nacional de Cabo Verde, ela alcança uma dimensão profunda a outros níveis, nomeadamente recorrendo aos clássicos da literatura cabo-verdiana, tanto do seu período fundador (Eugénio Tavares e sua poesia musicada) como também dos vultos da Revista Claridade, precisamente no seu lema Finká pé na Tchon / ter de partir querendo ficar. E fá-lo na lógica de um corpo dançante contemporâneo que, por isso mesmo, também um corpo-memória e identidade em (trans)formação, trazendo à luz do presente a (re)elaboração contemporânea de géneros musicais dançantes outrora proibidos pelos dispositivos do poder disciplinar colonial.

A qualidade dos movimentos que na peça CV Matrix encontra expressão é igualmente fruto de um forte conhecimento e presença da história da dança. CV Matrix é uma composição que advém de um sentir estético elaborado que, por excelência, é já em si um modo de pensar e persistir em cultura e identidade.

CV Matrix conseguiu mexer com a sensibilidade e atenção do público do auditório Jorge Barbosa, arrancando-lhe inumeráveis e inesperados aplausos ao longo do desfecho da sua narrativa. Encaminhou os espectadores para uma indispensável autopoiesis: convidá-los a essa indispensável viagem de penetração nos mistérios da sua vida interior que, por isso mesmo, também vida espiritual da cultura cabo-verdiana procurando celebrar-se no palco da história do corpo dançante como corpo poético.

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Elter Carlos

Elter Carlos

Elter Carlos é professor de Estética e de Filosofia da Educação na UNI-CV. Doutor em filosofia, ensaísta e escritor, é igualmente colaborador do Instituto de Filosofia da FLUP (IF-FLUP), com pesquisas recentes sobre a companhia de dança contemporânea portuguesa Nuiziszobop. Dos seus três livros publicados destaca-se, mais recentemente, “Raiz di Polon. A dança contemporânea caboverdiana como expressão filosófica, Vol.I “(2025).

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