A teoria do meu (des)Apego 

Comecei o ano de 2025 com uma única resolução: cuidar de mim, cuidar do meu emocional e resolver, senão de uma vez por todas, pelo menos durante os próximos quinze anos, os traumas que carrego desde tenra idade. E para isso tive a necessidade de, literalmente, despir as várias máscaras que tenho usado, e responder a mim própria, várias perguntas, e de entre elas, a razão da minha aparente eterna solteirice e do meu desapego em relação a todos que amo. Eis que a quatro meses do marco dos meus 50 anos de vida, deixo-vos aqui o que aprendi sobre a Teoria do meu (des)Apego, e a conclusão a que cheguei.
De acordo com o criador da Teoria do Apego, o psicanalista John Bowlby, nós, os humanos, temos tendência para buscar de forma instintiva relações que podem criar vínculos que seriam úteis tanto para nós como para o outro.Ele criou esta teoria com recurso a estudos sobre bebés, em que esses vínculos garantem a auto sobrevivência, ou seja, sem cuidados, o bebê não sobrevive. Para Bowlby o apego está ligado a sensação de segurança, e baseado nisso ele dividiu em três tipos, os perfis de apego: o tipo Seguro, o Tipo Ansioso e o Tipo Distante.

O Tipo Seguro é aquele que acha relativamente fácil se aproximar dos outros, não fica desconfortável por depender deles ou por tê-los como dependentes, e não fica a imaginar se será abandonado ou se alguém está a ficar íntimo demais. 

O Tipo  Ansioso é aquele que acha que os outros relutam em se aproximar dele, fica preocupado com a possibilidade do seu parceiro não lhe amar de verdade, e quer ficar mais próximo dos outros e isso às vezes assusta as pessoas. 

O Tipo Distante é aquele que se sente desconfortável com a intimidade, acha difícil confiar completamente nos outros ou depender deles. Fica desconfortável quando alguém se aproxima demais, e muitas vezes os outros querem maior intimidade do que aquele que está confortável em dar.

Uma pesquisa realizada, há algumas décadas, mostrou que a maioria de nós, mortais comuns, não somos do Tipo Seguro, aquele que acha fácil abrir-se e fechar-se e não fica criando autênticos filmes melodramáticos sobre o término de uma relação. Nós somos ou do tipo Ansioso (aquele que quer ficar grudado nas pessoas e sente que esses ficam assustados) ou do Tipo Distante (aquele que não gosta muito de intimidades e nem proximidades). Isso faz com que a maioria de nós esteja em relações onde nós somos ansiosos com parceiros distantes, ou nós somos distantes com parceiros ansiosos. E essas relações, via de regra,  terminam de forma traumática.De acordo com a teoria do apego, esses nossos padrões de comportamento têm sua origem ainda na nossa infância, e que experiências traumáticas na infância resultam em doentes amorosos.
 
As pessoas do tipo Distante não conseguem estabelecer conexões profundas, preferem ter todos como simples amigos, e preferem ter intimidade com desconhecidos a deixar que uma única pessoa se aproxime demais, porque, segundo a teoria, associam conexão com dor, pois na infância tiveram um cuidador que era fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. Ou seja, um cuidador que estava lá mas não estava lá. Esse tipo de pessoas são aquelas que investem na relação quando ainda é novidade, e à medida que o tempo passa, negligenciam a relação e se afastam.
 
As pessoas do tipo Ansioso são adultos que em criança sofreram uma perda ou um rompimento repentino com o cuidador, e acabaram por desenvolver uma ansiedade em que mais dia menos dia elas acabarão por ser abandonadas. São aquelas pessoas que sentem a necessidade de preencher todos os silêncios, que perante uma ausência de notícia tiram conclusões precipitadas, e começam a exigir de forma nociva a atenção dos seus parceiros.
 
Como a maioria de nós, meros mortais, estamos num relacionamento entre um ansioso e um distante, quando a relação se aproxima do fim, nós nos tornamos ou numa pessoa extremamente carente ou extremamente distante. Quem se reconhece na seguinte cena: “já não és como eras antes”, “já não me amas como no início” , “já não me dás atenção” ou então: “eu sempre fui assim, tu que já não lembras”, “Estás a imaginar coisas”, “és um carente e desequilibrado” ! Não se reconheceu??? Vá lá, não falte com a verdade, todos nós já tivemos uma relação que terminou assim!!!

Enquanto o Ansioso cria um tipo irremediável de carência  por amar demais e não ser amado da mesma forma, o Distante faz uma auto-sabotagem quando encontra o Amor, pois entende que é amado demais e ele não merece esse amor por ser algo que ele não conhece, por ser algo novo.
 
Normalmente o término da relação entre um Ansioso e um Distante é o filme que já vivemos e já testemunhamos várias vezes: o Ansioso diz que merece ser amado da mesma forma que ama e por isso está a dar por finda a relação, o Distante, ao se aperceber que está na iminência de perder o Amor que sempre achou que o estava a sufocar, promete que vai mudar, que vai ser carinhoso como foi no início. O Ansioso por regra acredita, eles mantém a relação até tudo voltar a se repetir.  

A maioria desses nossos relacionamentos só terminam quando o Ansioso decide romper o ciclo. O Distante tende a não fazer nada para impedir o fim da relação, pois para ele o relacionamento só existiu por instantes. Se vos servir de consolo saibam que ninguém se encaixa perfeitamente no perfil Ansioso ou Distante. Dependendo do relacionamento em que estamos, hora adotamos o perfil mais ansioso, hora o perfil mais distante, dependendo do papel que o nosso parceiro adotar.
 
O bom é quando decidimos evoluir, quando decidimos melhorar como pessoas, e procuramos conhecer mais sobre os nossos traumas, sobre o porquê dos nossos padrões de comportamento, e assim nos educar emocionalmente e afetivamente de modo a termos relações menos nocivas. Sei que todos nós gostaríamos de nos caber no Tipo Seguro de Apego. Aquele que se sente menos amado, se sente sufocado pelo amor, se distancia e fica ansioso. Ele é e faz tudo isso, mas o que ele de forma sábia não faz é re-encenar os traumas da sua infância. 
 
Até eu tomar a decisão de me despir das máscaras que carreguei e carrego, de forma bem prepotente eu me identificava com o Tipo Seguro de Apego. Me considerava a pessoa mais desapegada do mundo, pois não cobro amor, não cobro amizade, me contento com o que me dão. E sempre fui a filha, irmã, prima, amiga, namorada, amante sempre disponível, sempre procurando salvar tudo e a todos. 

Exatamente por sempre estar disponível, por querer ser a salvadora de todos, e por me deixar envolver somente o quanto baste  é que me descubro ser do tipo Distante de Apego nas minhas relações amorosas. Admito isso com toda a maturidade que esses quase 50 anos me trouxeram. Mas, assim como quebrei o ciclo de reprodução de comportamento parental que tive, sou uma mãe que está presente física e emocionalmente na vida da minha filha, acho que ainda vou a tempo de me educar emocionalmente, e quem sabe aprender a aceitar o Amor quando eu o encontrar. 
 
E vocês? 
 
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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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