A Lenda do Encantado da Pontinha de Janela

O dia já se encaminhava para a noite, com o sol a preparar-se para, uma vez mais, mergulhar no horizonte do mar da Pontinha de Janela. Sentado junto a ombreira da casinha de palha, nho Serafim contemplava o formar repentino de nevoeiro nos picos da Ribeira do Penedo, enquanto tirava fumo do seu cachimbo. A sua mão esquerda segurava o queixo, deixando-se aparentar pensativo e bastante preocupado. E deveras tinha razão para se encontrar nesse estado de manifesta aflição.
Foto cedida por Jeffery Hessney

Já fazia para lá de mais de oito horas desde que nha Bia, sua esposa, tinha entrado em trabalho de parto, sem que ele pudesse ter ainda escutado algum choro que sinalizasse o nascimento do bebé. Apenas via as ajudantes de nha Clara, a parteira, num ir e vir contante. Essas, ao verem a sua aflição, tranquilizavam-no, dizendo que estava tudo a correr bem e que dentro em breve dar-lhe-iam novidades.

No quarto, nha Clara supervisionava, com mestria, a dilatação, pedindo constantemente à nha Bia para fazer forças para lá das suas forças. Por outro lado, as ajudantes auxiliavam-na no processo, trocando a água da banheira, desinfetando os utensílios de parto e secando os pingos de suor que escorriam pela face abaixo da parturiente, com auxilio de um pano humedecido.

Sem acesso ao quarto, onde apenas era permitida a presença de senhoras, nho Serafim sofria com os bramidos, cada vez mais altos, da sua esposa, que lutava para expulsar o bebé. Aliviava a impaciência com o fumo do cachimbo, repondo um pouco mais de raspas que, com o canivete, cortara do naco de tabaco entrelaçado.

O parto, há muito que se adivinhava difícil. Nha Clara já tinha preparado nha Bia para o que se esperava. Pois, já se sabia de antemão que o menino que esta carregava no ventre tinha dons especiais que requereriam, segundo nha Clara, cuidados redobrados no parto, e muitos mistérios que ficariam guardados a sete chaves. Mistérios como aquele do dia em que nha Bia apanhou o maior susto da sua vida.

Nesse dia, nha Bia tinha ido à Ladeirinha do Penedo procurar um pouco de lenha que já se escasseava em casa. A barriga de sete meses de gravidez já era evidentemente saliente, dificultando-lhe algumas tarefas do quotidiano. Mas, ignorando os conselhos de nha Clara e os contínuos suplicados do marido, nha Bia insistia em manter-se ativa. Insistência que já se começava a revelar-se infrutífera e perigosa. Assim, sem a ajuda de uma viva alma, por mais que insistisse, não tinha como erguer a carga de lenha e colocá-la no cimo de um novelo de roupa velha que fizera para almofadar o peso sobre a cabeça.

Quando se preparava para abandonar a carga e regressar sem ela para casa, nha Bia escutara uma voz dizer-lhe “ó mẽ, se’m esdób, bo n’de contá ninguém?”, o que a deixou atónita. Minutos depois, já recuperada do susto, passou a mão sobre o ventre e disse “sim, nhé fi!”. A carga de lenha passara a pesar tanto quanto uma pena, sendo que nha Bia a colocou em cima da cabeça com o mínimo esforço. Partira pensativa, caminhando, a passos lentos, ladeira abaixo. Já em casa, mandou o afiliado Zequinha ir chamar nha Clara, com urgência. Ainda que já ouvira falar de encantados, tinha coisas que precisava confidenciar com ela.

Dez horas depois de nha Bia ter entrado em trabalho de parto, finalmente nha Clara conseguiu endireitar o bebé no canal de parto. Nesse momento, pediu as ajudantes que a deixassem a sós com nha Bia e que fossem tratar de outros afazeres, até que voltasse a chamá-las. Sem se desconfiar de nada, as duas senhoras retiraram-se do quarto, pois, em todos os partos, era normal nha Clara querer nesse momento ficar a sós com a parturiente. Ademais, era uma exímia parteira e curandeira, reverenciada por todos.

Escassos minutos depois, o menino nasceu sem demais complicações. A sua face vinha envolta numa espécie de véu branco, algo que nha Clara já sabia de antemão e informara nha Bia, na conversa que tiveram por altura dos sete meses de gravidez. A parteira realizou todos os procedimentos que a sua vasta sabedoria recomendava para esses casos. Logo assim que limpou a face do menino e as suas vias respiratórias, para a alegria de todos, ouviu-se o choro. Como quem escutava uma suave e singular melodia, nho Serafim soluçava feito um petiz. Seus verdes olhos marejaram de lágrimas de felicidade.

Nha Clara entregou o bebé à mãe, para que ela lhe desse de mamar, e, de seguida, dirigiu-se à porta para dar a boa nova a todos e mandar entrar as ajudantes. O parto só terminaria quando a parturiente expelisse a placenta. Esta, ao contrário dos partos normais, não poderia ser enterrada ou queimada. Pois, as criaturas malévolas se encontrariam em estado de alerta nessa noite, e seria um risco enorme para todos se elas conseguissem raptar a criança ou mesmo deitar garras à placenta.

Daí que nha Clara mandou vir nho Chico Valente, homem que não temia nenhuma espécie de criatura, fosse ela marinha ou terreste, diurna ou noturna. Nho Chico Valente era pescador e conhecia o mar ao redor da Pontinha de Janela como se fosse a palma das suas mãos. Há muito tempo, o seu bote virou-se nas imediações do Ilhéu d’Boi, tendo sido salvo da morte certa por uma sereia. Desde então, ele se converteu em guardião dos encantados e das sereias, apoiando nha Clara nas suas missões em terra ou nas deslocações à fortaleza do Ilhéu d’Boi.

Concluído o parto, nha Clara deixou a mãe e o bebé entregues aos cuidados das ajudantes, pedindo-lhes que não aceitassem nenhuma visita de desconhecidos durante a sua ausência. Ela segurou uma trouxa e, na escuridão, dirigiu-se à Pontinha, onde a aguardava nho Chico Valente. Pelo caminho pôde escutar os agoiros estridentes das bruxas que, feito aves de rapina noturnas, farejavam carniça e gotas de seiva inocente. Mas, nha Clara era que nem um baluarte fortificado de energia do bem, que repelia toda e qualquer força do mal.

O bote de nho Chico Valente deixou a Pontinha, rumo ao Ilhéu d’Boi. A agonia dos abutres de Érebo, que voavam em círculos entre a Fajã e a Pontinha de Janela, era cada vez maior, à medida que o bote se aproximava do seu destino. Eles sabiam que, se nha Clara e nho Chico Valente conseguissem concretizar a missão, sem a seiva de um inocente encantado, a dura penitência deles reiniciar-se-ia, mantendo-se as suas almas escravas do Senhor de Curral da Russa.

E, assim foi. Depois de alguns momentos de aflição ao largo da Pontinha, com o mar a erguer-se em vagas tenebrosas, o bote finalmente fundeou-se nas águas serenas do Mar d’Boi. Sem demoras, nha Clara interpretou o código secreto da Pedra do Letreiro, fazendo com que do rochedo do Ilhéu d’Boi abrisse uma porta, de onde surgiu o Rei Tritão e os seus soldados. Nha Clara entregou-lhe a trouxa. A porta secreta fechou-se atrás do rei e dos seus soldados. A partir desse momento, o encantado estava protegido de toda a espécie de forças malévolas. No regresso à Pontinha, nha Clara e Nho Chico Valente ainda puderam escutar os agoiros atroadores dos abutres de Érebo que tomaram a direção de Curral da Russa.

Socram d’Arievilo in Janela Fantástica – Contos e lendas de Santo Antão

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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