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Essa partidarização da política transmite uma ideia deturpada de que a política partidária é a única forma de política, e o facto de não se promover o debate político nas escolas, com programas de ensino que encorajam a passividade política em vez do pensamento crítico é que nos proporciona esta sociedade com uma fraca literacia política que sò beneficia o poder polìtico, alimenta a demagogia, e consequentemente temos uma polìtica deplorável e nada dinâmica e o resultado é só olhar para os debates polìticos parlamentares e dos candidatos polìticos em tempos de eleição.
Será que estamos prontos para reconhecer e enfrentar os custos de falar, criticar e resistir?
Apesar do orgulho nacional na estabilidade democrática, a democracia não pode ser limitada a uma simples transição do poder do povo que termina no ato eleitoral.
Na teoria, o sistema distribui o poder entre:
Na prática, porém, o poder fica concentrado em dois polos:
→ O Governo (Primeiro-Ministro)
→ A maioria parlamentar (quase sempre absoluta)
Estas duas estruturas, supostamente separadas, são na realidade a mesma coisa. O Governo define políticas e a maioria aprova; a maioria defende o Governo e o Governo protege a maioria; a disciplina partidária substitui a independência do deputado. Não é uma violação da Constituição, mas é uma distorção da sua filosofia original.
O parlamento cabo-verdiano deveria ser:
Mas quando um partido detém a maioria absoluta, algo quase constante na vida democrática cabo-verdiana, a Assembleia torna-se uma câmara de validação, não de fiscalização.
A teoria diz: o parlamento controla o Governo.
A prática diz: o parlamento protege o Governo.
O deputado, na sua função constitucional, deve representar a nação.
O deputado, na sua função prática, representa o seu partido.
O resultado é uma erosão silenciosa: o debate político empobrece, a oposição torna-se decorativa e o pluralismo transforma-se em ritual democrático sem força transformadora.
O Presidente da República, um destinatário direto do poder do povo, deveria ser:
Mas há três barreiras que limitam fortemente o seu papel:
Assim, o poder moderador torna-se moderado demais; a Constituição dá ferramentas, mas a cultura política tira-lhes uso.
O Judiciário cabo-verdiano tem independência formal, mas enfrenta limitações reais:
A Constituição protege a magistratura, a realidade condiciona-a
A justiça é independente, mas opera em terreno minado pela vontade do executivo.
Instituições independentes só na lei, mas frágeis na função:
O Tribunal Constitucional, a CNE, a Provedoria de Justiça e o Tribunal de Contas foram criados para garantir equilíbrio institucional. No entanto:
É o modelo clássico das democracias frágeis: instituições independentes que não conseguem impor independência ao poder político.
O inimigo invisível: o fanatismo partidário
A maior ameaça à separação de poderes em Cabo Verde não é constitucional, é cultural.
O país vive um ambiente de:
A literacia política fraca alimenta esta dinâmica: eleitor que não compreende as instituições entrega poder absoluto aos partidos, e partido que controla tudo controla também o Estado.
O resultado é simples e trágico: a separação de poderes existe como ideal, mas não como prática quotidiana.
Sem apontar nomes, podemos observar padrões:
Nada disto é exceção: é padrão
A transformação que defendemos não é pontual, nem cosmética: é estrutural. E, como tal, exige um duplo movimento que não deve ser visto como uma escolha entre duas opções, mas sim como dois processos complementares, interdependentes e mutuamente reforçadores.
A primeira via é a construção de uma literacia política consciente e crítica. Sem cidadãos politicamente lúcidos, nenhuma reforma institucional sobreviverá ao tempo. A ignorância política muitas vezes cultivada e alimentada é o instrumento mais eficaz para perpetuar sistemas disfuncionais.
A segunda via é a necessidade de uma revisão constitucional séria e profunda, capaz de repensar o atual sistema de governo. Cabo Verde adotou uma estrutura parlamentar em 1990 adequada ao contexto da época e ao desejo de estabilização pós-partidarismo único, mas o país de hoje já não é o país de 1990.
O atual modelo parlamentarista, altamente dependente das maiorias partidárias, transformou-se num sistema com poucos freios e contrapesos. Não existem equilíbrios reais porque o partido que vence as eleições controla automaticamente tanto o governo quanto a maioria do parlamento. E um parlamento dominado pela maioria deixa de ser espaço de fiscalização e passa a ser extensão do executivo. O debate político enfraquece, a oposição perde capacidade de influência e o cidadão torna-se mero espectador de um jogo já decidido à partida.

Nascido em ´Son Bento´, Cabo Verde em 1994, Scar Martins cresceu no arquipélago até completar o ensino secundário, no Liceu Amílcar Cabral. Em novembro de 2012, mudou-se para Portugal, onde estudou serviços jurídicos em Mirandela e ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa dois anos depois. Durante esse período, liderou o Núcleo de Estudantes Africanos, foi vice-presidente do Conselho Fiscal da Associação Académica e mais tarde atuou em empresas multinacionais como a Accenture e o BNP Paribas. Depois, decidiu mudar-se para a Suíça, onde vive há cerca de um ano e meio e trabalha como conselheiro financeiro. Autor do livro “Entre não ser e Querer Ser”







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