Alô, São Vicente. Alô, Mindelo

Vejo-te nas notícias destes últimos dias, marcada pela força bruta da água que invadiu as tuas ruas, e sinto que a tua dor também é minha.
Foto cedida por internauta

Lembro-me de ti noutros tempos, sempre alegre e culturalmente animada, com cores radiantes, sorrisos leves e olhares cheios de alma a iluminar cada recanto. Lembro-me de como me acolheste na minha primeira chegada e lançaste-me para um caminho de aprendizagens e conquistas, mesmo enquanto driblava desafios. Mas, sempre me transmitiste leveza e esperança.

Hoje, nos relatos e retratos, revelam-se as tuas cores gastas. Mesmo à distância, as imagens emanam o cheiro a barro das águas paradas deixadas pelas enxurradas.

Dói receber a notícia de pessoas próximas que perderam tudo. Doi saber de amigos e conhecidos que perderam familiares, tragados e vencidos pelas cheias impiedosas, que lhes tiraram a energia de lutar e os levaram para sempre. Enfim, vidas interrompidas, sonhos desfeitos e cicatrizes que permanecerão na memória de todos nós.

Mas, Mindelo, entre perdas, deixaste também uma lição — um alerta para as tuas ilhas irmãs, para todo o Cabo Verde. O que temos testemunhado em tantos países do mundo lembra-nos que as mudanças climáticas não conhecem fronteiras. Tantas vezes a nossa pequenez pareceu uma vantagem e, de facto, fomos muitas vezes poupados. Mas o que aconteceu contigo veio recordar-nos que já não podemos assumir a posição de “isto não acontece comigo”.

Tornaste num reflexo vivo dessa verdade, quando as chuvas repentinas e as inundações desnudaram não apenas fragilidades ambientais mas também sociais e económicas. As Nações Unidas têm alertado que os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, como o nosso Cabo Verde, estão entre os mais vulneráveis às alterações climáticas. E, num país cuja economia respira em grande parte do turismo, a instabilidade climática põe em risco a imagem de destino seguro e fere diretamente milhares de famílias que vivem desse sustento.

Mostraste que não podemos permanecer inertes. Precisamos respeitar a força da natureza e arquitetar cidades em harmonia com as mudanças climáticas. Isso começa na governação, que deve integrar esta variável em cada decisão, e estende-se às comunidades, chamadas a repensar as suas práticas. É preciso construir infraestruturas resilientes, mas também cultivar a consciência de que cada gesto conta para um futuro mais acolhedor e sustentável.

E por falar em gestos que contam, é encorajador ver como a corrente de solidariedade rapidamente se ergueu, com a grandeza e a urgência de quem sabe cuidar do que é seu e também do próximo. Através de mãos estendidas e vozes partilhadas, vimos os gestos somarem-se em teu amparo.

Tu, Mindelo, mereces…mais do que resistir. Mereces ser preservada, cuidada e reinventada. Tenho pensado muito em ti e sei que, mesmo pequenina, carregas a imensidão no coração.

Sê forte! Com coragem e resiliência, vais reerguer-te e recuperar o teu valor.

Estamos contigo!

Denizia Pinto Correia

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Denízia Pinto Correia

Denízia Pinto Correia

Cabo-verdiana, com experiência internacional na área de promoção da saúde pública e mudança de comportamento social. Apaixonada por iniciativas que promovem hábitos saudáveis e impulsionam o desenvolvimento humano. Acredita no poder de pequenas ações para transformar comunidades e inspirar mudanças duradouras.

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