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Para uma ilha que raramente enfrenta precipitação significativa, a dimensão da tragédia foi um choque. Vidas foram perdidas, famílias viram anos de esforço serem arrastados pela água e a declaração de situação de calamidade destacou a gravidade do cenário. Mais do que um episódio isolado, este desastre traz à tona a necessidade urgente de repensar a forma como planeamos e construímos os nossos espaços urbanos.
O episódio em São Vicente mostrou-nos que não estamos apenas perante um fenómeno natural extremo, mas também perante as limitações do nosso planeamento urbano. Cidades desenhadas sem considerar cenários climáticos mais severos tornam-se vulneráveis quando a realidade ultrapassa as previsões tradicionais.
Este desastre levanta uma questão essencial: como garantir que as nossas cidades resistam a um futuro em que eventos climáticos extremos poderão ser cada vez mais frequentes?
A experiência de São Vicente reforça a necessidade de um planeamento urbano moderno, que integre adaptação e mitigação das alterações climáticas. Não basta pensar em obras de emergência depois do desastre; é preciso incorporar soluções preventivas desde o início.
Isto passa por melhorar as condições de habitação, universalizar o saneamento básico, recuperar áreas degradadas e integrar a gestão de riscos como elemento central no desenvolvimento urbano. Além disso, é essencial investir em infraestruturas verdes, como corredores de drenagem natural, bacias de retenção e espaços públicos multifuncionais que ajudem a reduzir o impacto de cheias.
A nível internacional, muitas cidades já implementam soluções inovadoras: redes de transporte público limpas, ciclovias integradas, arborização urbana, telhados verdes e sistemas de alerta precoce. Cabo Verde pode e deve inspirar-se nestes exemplos para criar um modelo de crescimento urbano sustentável e resiliente.
Há quem argumente que investir em resiliência climática é dispendioso. Contudo, os dados demonstram que o custo da inação é muito superior. Ao longo das últimas décadas, os desastres relacionados com fenómenos climáticos têm provocado perdas económicas massivas, deslocamento de populações e um enorme impacto social.
Estudos internacionais comprovam que cada valor investido em adaptação e
mitigação traz múltiplos benefícios:
1. Redução de danos em vidas humanas e bens materiais;
2. Desenvolvimento económico impulsionado por cidades mais seguras e eficientes;
3. Benefícios ambientais com menos emissões, mais espaços verdes e melhor qualidade do ar.
Este é o chamado triplo dividendo da resiliência climática: menos perdas, mais progresso e melhor ambiente para todos.
A tragédia de São Vicente deve ser um ponto de viragem. Como cidadãos, precisamos exigir políticas públicas claras e ambiciosas para construir cidades adaptadas à nova realidade climática.
Para os governantes, o desafio é liderar com visão e coragem: investir em estudos de vulnerabilidade, elaborar planos de ação climática, promover legislação adequada e garantir que o crescimento urbano seja sustentável e inclusivo. É essencial articular esforços entre governo, setor privado, universidades e sociedade civil. Só assim poderemos enfrentar um desafio desta dimensão.
As alterações climáticas são uma realidade que não podemos ignorar, mas as decisões que tomarmos hoje podem mudar o rumo da história. São Vicente não precisa ficar apenas marcada pela tragédia; pode ser o exemplo que nos levou a agir para construir cidades mais preparadas, humanas e seguras.
Ao abraçarmos soluções inovadoras, apostarmos na educação ambiental e priorizarmos a adaptação climática, estaremos a criar um futuro mais resiliente para as próximas gerações.
O tempo para agir é agora — porque a natureza não espera.

Mãe, esposa, engenheira e empresária. Especialista em Energias Renováveis e Eficiência Energética, tem uma vasta experiência no setor energético e um forte compromisso com a sustentabilidade. Apaixonada pelo desenvolvimento do setor em Cabo Verde, é também uma entusiasta das questões de género, acredita na importância da participação ativa das mulheres na transição energética e procura incentivar essa inclusão







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