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Para mim, o universo é a mais extraordinária inovação que a humanidade já conheceu. É a materialização de uma ideia de Deus executada nos seus mais delicados detalhes, através de desenvolvimentos radicais e incrementais que começaram com uma colossal exploração de possibilidades. Ou, para aqueles que acreditam, resulta da execução de uma explosão de um ponto quente e infinitamente denso que gerou matéria, energia, tempo e espaço.
Criacionistas e cientistas podem até ter opiniões antagónicas sobre a criação do universo. No entanto, pode-se encontrar um terreno comum em algumas perspetivas das duas teorias. Uma delas é a noção de que este universo, tal como o conhecemos atualmente, não é apenas uma grande ideia não materializada na mesa de um deus ou, armazenada perpetuamente num tubo de ensaio de algum gigantesco laboratório científico da Via Láctea. É, de facto, a execução dessa “ideia” que fez o universo o que conhecemos hoje! Seja por Deus ou, por qualquer teoria científica, o plano do universo foi executado! Assumindo todos os riscos possíveis de falha, ainda assim foi executado!
Se para Deus, ou para o Big Bang, entregar tal maravilhosa inovação bastou “comandar” ou “explodir”, quando se trata de entregar inovação num contexto organizacional, é preciso lembrar que os humanos não são deuses, mesmo que às vezes tenham essa pretensão. Portanto, para o ser humano entregar inovação, é necessário ir “além da ideia”. Isso geralmente significa aceitar o desafio de atravessar o abismo do 1% de inspiração e meter as mãos na massa nos 99% de transpiração que Thomas Edison definiu como sendo o segredo para se formar um génio. Ideias estagnadas no fundo de uma gaveta ou no disco de qualquer dispositivo tecnológico, não passam de suposições abstratas.
Mas afinal, o que é a Inovação?
A inovação é frequentemente associada à criatividade, mas implica muito mais do que apenas a geração de ideias novas e originais. Inovar exige conhecimento, imaginação, avaliação e, acima de tudo, atitude. A verdadeira inovação requer ação. A execução bem-sucedida de uma ideia criativa, com o objetivo de entregar valor, pode ser a definição mais próxima de inovação. Este processo pode envolver a introdução de algo novo ao processo, a utilização de uma nova técnica, a experimentação de novos métodos ou a busca pela entrega de um novo produto ou serviço. Em resumo, a inovação é um processo de aprendizagem no qual ideias valiosas são transformadas em novas formas de valor agregado para o consumidor, para a organização e seus stakeholders (Dasgupta e Gupta, 2009).
O Sistema de Inovação
Uma inovação que não visa fornecer soluções éticas aos desafios propostos não deveria nunca ser considerada inovação, mas sim regressão. Compreender a verdadeira intenção por detrás da necessidade de inovar é crucial, pois no sistema de inovação existem quatro parâmetros que, quando sujeitos a influências pouco éticas, podem comprometer completamente qualquer campo que se pretenda inovar: Pessoas, Pressão, Processo e Produto.
Pessoas (People)
A inovação começa e termina com as pessoas. Desde o início até a valorização dos resultados, a participação humana é essencial. Enquanto alguns acreditam que a inovação surge de intenções, eu defendo que ela começa com as pessoas, cuja visão e compromisso são cruciais. Líderes devem assegurar que todos na organização compartilhem a mesma visão e se alinhem para alcançá-la. Além disso, a inovação deve atender às necessidades dos usuários e stakeholders, que estão no centro do processo. São as pessoas que moldam o processo de inovação e determinam o clima e a cultura organizacional, influenciando diretamente a eficácia da inovação.
Pressão (Press)
Pressão aqui deve ser entendido como sinónimo de todo o clima e cultura que envolve uma organização. Envolve tudo, desde o espaço físico até o ambiente intangível onde todas as iniciativas ocorrem. O papel principal dos líderes é garantir um ambiente positivo para que a inovação floresça, mas essa tarefa não é atribuída apenas aos líderes. Os líderes devem, no entanto, fomentar um ambiente que apoie ideias no processo de transformação em ação. Estudos demonstraram que organizações que constroem climas de inovação saudáveis e que engajam as pessoas tendem a ter taxas mais altas de lucratividade, produtividade e lealdade do cliente (Bluegreen Learning, n.d.).
Processo (Process)
Problemas complexos, conhecidos como “problemas perversos” (tradução mais próxima para o conceito de “Wicked Problems”), conceito introduzido por Melvin Webber, exigem abordagens criativas e não convencionais para serem resolvidos eficazmente. Estes problemas são frequentemente mal definidos, envolvem múltiplos tomadores de decisão e apresentam várias soluções possíveis. Nestes casos, ao invés de aplicar métodos tradicionais ou soluções simples, é essencial utilizar processos exploratórios e adaptativos que possibilitem o desenvolvimento de soluções inovadoras.
Produto (Product)
O produto é o resultado tangível do processo de inovação. Este não tem um fim em si mesmo, mas trata-se de um meio de gerar valor para o usuário e, por consequência, para o inovador. Um produto inovador deve combinar a trilogia da qualidade (equilíbrio entre qualidade, preço e tempo de entrega) com a trilogia da escala semântica do produto criativo (novidade, utilidade e elaboração) (White, Shen e Smith, 2002). A escala semântica facilita a análise sistemática de produtos criativos, ajudando a assegurar que eles atendam às expectativas e necessidades do mercado (Besemer & O’Quin, 1986; O’Quin & Besemer, 1989).
Mas então porque inovar?
Voltando à história do universo, Antoine Lavoisier disse uma vez: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Tudo já se encontra criado, cabe ao ser humano o trabalho necessário para transformar o que já cá está, em algo novo e que ofereça um valor extra à existência. A transformação faz parte do mundo humano e é um caminho inevitável. No entanto, mudanças, nem sempre são popularmente aceites nem fáceis de se colocar em prática.
A globalização e o desenvolvimento tecnológico drástico, impactando a interconectividade e a atividade digital, encorajaram uma transformação dinâmica no mundo do consumidor nunca antes experimentada (Mamula, 2021). A forma como os consumidores pensam, aprendem, vivem, fazem escolhas, compram e socializam não é a mesma de há cinco anos e não será a mesma nos próximos cinco. O cenário do mundo VUCA (volátil (volatile), incerto (uncertain), complexo (complex) e ambíguo (ambiguous)) é um exemplo perfeito de um problema perverso para as organizações que competem no mercado do oceano vermelho (metáfora usada pelos estrategistas W. Chan Kim e Renée Mauborgne no campo da gestão, para referirem-se a um mercado saturado onde várias empresas competem por uma fatia do mesmo mercado).
Assim como tudo no universo, o mercado nunca foi constante e nunca o será. Permanecer ou não, no oceano vermelho é uma escolha que as organizações que desejam manter sua relevância para os consumidores devem fazer. Se o seu principal propósito for continuar a fornecer valor para os utilizadores, devem decidir onde e quando continuar a implementar inovações incrementais ou, se se aventuram em mudanças mais radicais pulando para o oceano azul, onde há um novo mercado com pouca competição ou barreiras para os inovadores (W. Chan Kim e Renée Mauborgne, 2015). Seja no oceano vermelho ou no azul, o que é inevitável é a necessidade de inovar para se manter relevante.
A Resistência à Inovação
Apesar do reconhecimento de que a inovação é necessária para o crescimento e a sobrevivência organizacional, muitas empresas resistem à ideia. Esta resistência pode ter várias origens, incluindo o medo do desconhecido, a errónea percepção de que a mudança seja desnecessária, a falta de recursos para implementar novas ideias, a falta de certos conhecimentos específicos, a própria cultura organizacional da instituição, o modo “gravidade” do negócio, o medo do fracasso. Poderia explorar cada uma das causas mencionadas, mas por agora gostaria de debruçar um pouco sobre a questão modo “gravidade” do negócio.
O Modo “Gravidade” dos Negócios
A “gravidade” dos negócios é um conceito central para entender porque muitas organizações não conseguem inovar. Esta “gravidade” puxa uma organização em direção às melhorias incrementais, limitando ao desempenho financeiro e à capacidade de adaptação. A “gravidade” refere-se a todas as operações diárias e iniciativas relacionadas ao negócio principal que mantém o fluxo de caixa e a estabilidade financeira.
Govindarajan argumenta que não é fácil para as organizações que se destacam na execução de seu negócio principal terem foco em fechar o “gap de possibilidades” para o futuro, pois isso requer uma lógica diferente daquela usada pela equipa que lidera a operação do dia a dia, com vista a manter ou elevar a performance. Normalmente, as organizações tentam perseguir soluções futuras com a mesma equipa, a mesma mentalidade, estruturas e processos. Govindarajan, porém, propõe uma organização híbrida onde os líderes mantêm o negócio principal a funcionar ao lado de uma equipa dedicada ao futuro. Esta equipa deve ter capacidades diferentes, com uma estrutura e processos distintos, trabalhando separadamente do negócio principal, porém não isolada. Ao dedicar-se exclusivamente à exploração de soluções futuras, estaria imune à gravidade dos negócios, já que o seu papel não estaria focado em fechar o “gap de desempenho” diário (2016). Mas repare, a equipa dedicar-se-ia exclusivamente à “exploração de soluções” e não à “criação de ideias” apenas. Esta exploração implica, investigar, criar, testar, melhorar e testar de novo.
Portanto, inovar ultrapassa o campo de criação de ideias; é transformar essas ideias em realidade de uma maneira que crie valor. Isso exige não apenas criatividade mas também uma execução disciplinada, suporte organizacional e uma cultura que valorize a inovação.
A nossa nobre missão como seres humanos que pretendem viver sustentavelmente neste mundo é a de inovar liderando a irrevogável transformação do mundo. O mundo não pára por falta da nossa ação. Seja por ações divinas ou por argumentos científicos, ele muda diariamente e será nossa a responsabilidade de lidar com as consequências das mudanças que uma vez recusamos liderar, por medo de tomar uma atitude.
Assim como o universo foi transformado de uma ideia magnífica em realidade tangível, nossas organizações devem seguir o mesmo caminho, dentro dos seus pequenos universos. Inovação é uma questão de atitude, e é nossa atitude em relação à mudança e à transformação que determinará o nosso sucesso. Do mesmo modo que Deus ou o Big Bang materializaram o universo, devemos tornar tangível as ideias que quiçá nos levam à inovação que pretendemos.
Inovar é ultrapassar o modo da gravidade, é ir além da manutenção do status quo, é aventurar-se na exploração de soluções revolucionárias. A verdadeira inovação reside na ação, na coragem de liderar mudanças e na determinação de transformar ideias em realidade. Afinal, da ideia à ação, a inovação é, indubitavelmente, uma questão de atitude.

Mestre em ciências da inovação, criatividade e liderança pela Bayes Business School, City University of London







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