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Depois de observar, duas vezes, a atitude das duas senhoras, perguntei qual era o problema e expliquei-lhes que ele é autista, não fala e que aquela era a forma dele se expressar.
Uma das senhoras automaticamente colocou a mão no meu braço e pediu-me desculpas, dizendo que me compreendia. A outra continuou a resmungar e a cobrar-me explicações em relação à minha atitude, alegando não ter dito nada de mais e que ao ouvir a criança a gritar deduziu que poderia estar com algum problema.
Confesso que, talvez, a minha abordagem não tenha sido a melhor, porque fui com 4 pedras nas mãos, mas de tanto viver estas situações e de ter de dar explicações, já se cria um comportamento defensivo que acaba por se tornar numa atitude quase que natural.
Em um outro episódio no autocarro uma senhora reclamou do barulho feito pelo Miguel até porque segundo ela, ele já é crescido para fazer tal algazarra… nesta situação eu estava com fones nos ouvidos e não pude escutar os comentários. Só ao sair do autocarro é que uma conhecida me relatou o ocorrido. Disse-me ainda, que só depois de fazer uma cara de poucos amigos, a tal senhora deixou de fazer comentários.
Perguntei-lhe porque é que ela não me contou na hora, porque teria naquele momento respondido nestes termos: “se não quer ser incomodada que procure outro meio de transporte”.
Estas são duas situações que fazem parte de várias outras que as mães de autistas passam todos os dias, quer nos transportes (porque muitas vezes infelizmente não temos possibilidades de ter um transporte privado), nas instituições, nas escolas, nos supermercados, mercados etc.
E esta posição de defesa-ataque é uma realidade num simples parque de diversões onde tens que estar, constantemente, a explicar aos outros pais, que o teu filho tem uma condição especial e que o comportamento dele, junto dos brinquedos, não representa um acto de má educação, mas sim, é a cabecinha dele que funciona diferente.
Num restaurante, um grito mais alto é motivo de olhares e estranheza e muitas vezes esta situação deixa as pessoas que estão contigo, envergonhadas ou constrangidas.
E mais uma vez tens que esclarecer o comportamento do teu filho ou a antecipar e justificar antes acontecer.
Se não estás a justificar estás a discutir, sempre a explicar às pessoas a sua condição especial ou a lutar pelos seus direitos. E quando a resposta das pessoas vem com “ele tem alguma coisa? Ele não tem nada, é só mal educado, nem parece autista ou tudo agora é justificado com autismo” e tens que controlar para não descarregar toda a tua frustração na pessoa.
Para além do cansaço físico de sair com uma criança que exige que todos os teus sentidos estejam em alerta permanentemente e que estejas disposta a correr de um lado para o outro sem parar ( eu não posso deixar o Miguel num brinquedo e ir sentar-me num banco, mesmo que seja perto) tens que lidar com os julgamentos, preconceitos, falta de conhecimento e comentários de muitos que atravessam no teu caminho.
Ou seja, são mães que saem de casa todos os dias prontas para uma guerra, armadas e predispostas a enfrentar qualquer batalha e têm a sorte de voltar algumas vezes sem uma pelo caminho.
Verdade seja dita, que também cruzamo-nos com muitas pessoas respeitosas, que fazem os nossos dias serem menos pesados e felizes. No final do dia, como todo ser humano que somos, a memória que fica é sempre o mais negativo, ou seja, é aquele comentário inadequado que a mãe ouviu na padaria.
Escrevo este texto sabendo que várias mães, com filhos com condição especial igual ao meu, irão se identificar comigo, mas ao contrário de mim que briga, fala alto, imponho a minha presença e a do meu filho, existem muitas outras que não têm a mesma força e acabam por ser reclusas dentro das suas casas, junto com os seus filhos, porque a nossa sociedade, por mais evoluída e moderna que é atualmente, ainda não sabe lidar, com aquele que é diferente.
Profissional com competência em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.







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