Do ceticismo à apatia: os efeitos da descredibilização sistemática

“ Todos os políticos são corruptos”, “ todos os jornalistas mentem”, “os dados desta instituição não são credíveis” ou “não podemos confiar neste partido”. Com certeza já leu ou ouviu algumas destas frases na sua feed do Facebook ou de qualquer outra rede social. Numa primeira análise, fica a sensação de que vivemos em uma realidade enganosa, na qual nada é o que parece ser.

A verdade é que as nossas redes sociais estão inundadas de teorias da conspiração e incessantes apelos á descredibilização de pessoas e instituições. Atualmente, este fenómeno, catapultado pelas novas tecnologias, constitui um dos principais perigos às democracias contemporâneas.

Evidentemente, as pessoas sempre tiveram diferentes percepções da realidade. No entanto, hoje têm acesso a factos diferentes. Simultaneamente, em uma esfera de informação sem autoridades e fontes confiáveis, não é fácil distinguir as teorias da conspiração das histórias verdadeiras na medida em que falsas narrativas produzidas em grande escala se disseminam rápido demais para que os factos sejam verificados.

Seis anos antes de Hitler chegar ao poder, o ensaísta francês Julien Benda já temia que escritores, jornalistas e ensaístas, transformados em empreendedores e propagandistas pudessem conduzir civilizações inteiras a atos extremos. Talvez hoje os propagandistas sejam outros, porém os modos operanti continuam os mesmos. Sistematicamente, ouvimos: partidos políticos a colocar em causa a credibilidade das instituições públicas em prol de disputas político-partidárias; influencers digitais e figuras públicas a disseminar desinformação, semeando o caos em defesa de interesses próprios.

Tais práticas reforçam a noção de que não pode haver imparcialidade em uma sociedade polarizada, porque não pode haver instituições/pessoas apartidárias ou apolíticas. Deste modo, deixa de importar o que é dito, importa quem disse. Quem não está alinhado com uma das duas posições dominantes não tem voz: o que disser será interpretado como apoio ou crítica a um dos dois pólos. O resultado está à vista de todos: um hiperpartidarismo que aprofunda a desconfiança relativamente à política, aos “especialistas”, às instituições mainstream incluindo tribunais, polícia e servidores públicos.

Quando tudo é colocado em causa, desde os dados até às instituições, a base comum que sustenta o diálogo social desaparece. Numa sociedade na qual não reina a confiança, não há debate honesto, nem solução coletiva possível. A crítica é seminal, desde que feita com rigor e seriedade isenta de cinismo e/ou oportunismo.

Outrossim, defender a democracia em tempos conturbados como o nosso, exige mais do que convencer os eleitores a votarem: exige respeito pelas instituições da república, compromisso com a verdade, investimento em educação crítica e, acima de tudo, responsabilidade individual. A democracia, longe de ser perfeita, é o único sistema que permite emendar os próprios erros.

Imagem enviado pelo autor gerada por IA

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Ailton Santos

Ailton Santos

Formando em Relações Internacionais e Diplomacia.

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