Festival Kontornu: Resenha Crítica “Longi” 

Reprodução REdes Sociais
Uma Resenha Crítica do docente Elter Carlos no âmbito do Festival Kontornu.

O espetáculo Longi, exibido no Centro Cultural Português da Praia (CCP), a 12 de maio de 2026, no âmbito do Festival Kontornu, é um solo da bailarina cabo-verdiana Luciény Kaabral, da Companhia de dança alemã Tanztheather Wuppertal Pina Bausch, e de Raiz di Polon. Ao entrelaçar dança contemporânea com raízes tradicionais da dança e cultura cabo-verdianas, Longi, uma peça ainda em fase de criação e montagem, ousa tocar os mistérios de uma realidade social muito silenciada contemporaneamente: o estado emocional e espiritual Resenha Crítica “Longi” advindo da infertilidade e do desejo de ser mãe por parte de muitas mulheres.

O espetáculo, além da morna instrumental dialoga com o disco Longi do eminente músico e compositor cabo-verdiano Tcheka. Conta ainda com coreografia e direção do bailarino Nuno Barreto, e com textos e poesia de Luciény Kaabral. O público é convidado o público a embarcar numa viagem para o interior de sua consciência subjetiva e (re)imaginar a silenciosa dor psico-emocional, outrossim flagelo social, daquelas mulheres (e famílias) vítimas de preconceitos socias a esse nível. 

A dança de Luciény Kaabral, visivelmente contemporânea, é exemplo autêntico de que a arte contemporânea deve estabelecer o agambeniano diálogo entre luz e sombra: em vez de se deixar ofuscar pelas luzes do presente, a arte contemporânea convida o sujeito estético a ser(-se) capaz de, igualmente, escutar as próprias sombras desse presente. E é no movimento dessa atenta escuta no seio das enigmáticas trevas contemporâneas que a bailarina cria símbolos, signos e movimentos de sentido. E é assim que, igualmente, envolveu o espectador do CCP-Praia a um trabalho do espírito (a uma viagem para o interior da consciência). A uma viagem que, ao fazer da arte uma questão social e política, permite ao espectador vencer a indiferença acerca desse problema que atormenta a condição da mulher e da família. 

Longi questionou o público num autêntico ambiente introspetivo, remetendo-se-lhe para uma catarse (ie, libertação de sentimentos, alívio de emoções), o que, em termos éticos e estéticos, conduz esse espetador a viver, via arte, o sofrimento do outro, despertando nele sentimentos de compaixão e humanidade. Viver a dor na arte, ainda que não na vida real, é uma forma simbólica de educação e formação humana. Além de fina qualidade técnica, artística, ética e política, esta performance de Luciény Kaabral é um grito na escuridão de um tema tabu e silenciado hodiernamente, mormente numa sociedade onde existe um certo controlo emocional acerca da maternidade. 

Este novo trabalho da bailarina, ao (re)apresentar um corpo dançante que se desvenda entre o desejo e a perda, a resistência, a culpa, a dor emocional ou física, insurge como revolta de uma condição: a condição feminina como condição humana. Logo, esta performance é igualmente educativa e formativa, podendo ser trabalhada em contextos de saúde pública e “gestão” de emoções e autoestima das vítimas de um certo controlo social da maternidade.  Eis a verdadeira arte: pensamento sobre tudo o que não é alheio ao ser humano. Os artistas têm um papel preeminente porque trabalham com laboratórios de emoções, pensamento, sentimento e razão, pelo que alcançam patamares inimagináveis na formação do Ser do ser humano, algo nem sempre alcançado por outros campos do conhecimento.   

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Elter Carlos

Elter Carlos

Elter Carlos é professor de Estética e de Filosofia da Educação na UNI-CV. Doutor em filosofia, ensaísta e escritor, é igualmente colaborador do Instituto de Filosofia da FLUP (IF-FLUP), com pesquisas recentes sobre a companhia de dança contemporânea portuguesa Nuiziszobop. Dos seus três livros publicados destaca-se, mais recentemente, “Raiz di Polon. A dança contemporânea caboverdiana como expressão filosófica, Vol.I “(2025).

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