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Em Cabo Verde temos o “péssimo” hábito de perguntar aos jovens casais, ainda sem filhos ou sem filhos em comum: “Para quando os filhos?”
As pessoas não têm noção, ou nunca pararam para pensar, que uma simples pergunta como essa pode ser como sal numa ferida em carne viva no interlocutor.
Não sabem as batalhas que, todos os dias, o casal – e especialmente a mulher – enfrenta.
Não sabem a dor que, todos os meses, dilacera o peito quando a menstruação chega… afinal, mais uma vez, não foi desta vez, e a esperança esvai-se literalmente em sangue.
Quem pergunta, por vezes por curiosidade ou por achar que a vida é uma “check-list” onde os filhos têm de constar obrigatoriamente, não conhece o desejo e a mágoa escondidos, a dor da infertilidade e o insucesso de várias tentativas frustradas.
Sim, porque quem sofre com isso geralmente prefere guardar essa vontade, essas batalhas, para si mesmo – seja por vergonha, por medo de julgamento ou, simplesmente, para se resguardar da avalanche de emoções que isso acarreta. É um silêncio que grita, mas que poucos conseguem ouvir.
E isso, muitas vezes, leva ao isolamento das pessoas. Imaginem a força necessária para responder, com educação e delicadeza, a algo que desperta uma dor no fundo da alma.
Imaginem as incontáveis vezes em que é preciso reunir forças para manter um sorriso e não revelar o que vai na alma. Muitas vezes, essa força vai faltando e, com isso, a solução encontrada é o evitar convívio. Pouco a pouco, o isolamento parece ser a alternativa mais segura e viável para o bem-estar mental.
Muitos casais enfrentam a batalha íntima e silenciosa para gerar um filho. Infertilidade, abortos espontâneos, tratamentos médicos exaustivos e pressão emocional, fazem parte da realidade vivida por muitos, mas que raramente é partilhada de forma aberta.
Ao contrário, a pergunta “para quando um filho” está em todo o lado – numa conversa com um amigo, numa reunião familiar ou até mesmo no ambiente de trabalho.
Muitos que me conhecem podem estar a perguntar se já passei por isso. Não, não passei, mas já convivi – e convivo – com pessoas que passam por isso, e dói-me ouvir que sofrem por algo aparentemente “tão simples”, uma pergunta tão “inocente” que lhes é atirada nos círculos de convívio por amigos e conhecidos.
Sinto-me privilegiada por pensar que têm em mim um lugar seguro. Mas com os privilégios também vem o dever de falar por eles e por todos aqueles que passam por isso e que, por motivos que só a eles dizem respeito, remetem a dor ao silêncio.
Este texto é um convite à reflexão sobre o impacto de uma pergunta aparentemente inocente, mas que pode abrir feridas profundas em quem escuta.
Por tudo isso, antes de perguntarem a alguém “para quando um filho?”, pensem: “há mesmo necessidade? Pois, aquilo que para nós é apenas curiosidade, ou forma de meter conversa, para o outro é uma ferida aberta… e há feridas que não se vêem, mas doem todos os dias.
Praia, 12 de abril de 2025
Delmira Sousa Veiga
Advogada, Gestora, mãe de 2 adolescentes e 8 animais, adora estudar e escreve às vezes para acalmar a alma inquieta que é.







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