Entre o populismo e a visão: debate ideológico?

Nas últimas décadas, os discursos dos principais partidos políticos em Cabo Verde incidiram em alguns consensos mais ou menos reconhecidos por todos: boa governação, estabilidade política, economia azul e modernização administrativa.

As propostas feitas aquando das campanhas eleitorais apresentam muito pouco da matriz verdadeiramente ideológica que permite ao eleitor diferenciar um partido do outro. A ausência de uma matriz ideológica clara e com reflexos substanciais nas políticas públicas induz à percepção popular de que apesar da alternância democrática entre os dois principais partidos políticos, muitos cabo-verdianos sentem que, na prática, pouco ou nada muda. 

Naturalmente, é preciso ter em linha de conta o contexto histórico e a realidade sócio-económica para entender que um país com parcos recursos e extremamente vulnerável a choques externos, não tenha muita margem de manobra em termos de posicionamentos ideológicos ao nível da política internacional. Porém, quando falamos da política no contexto nacional e tratando-se de um país soberano, a realidade é, ou pelo menos, deveria ser distinta. No meu ponto de vista, impera uma certa lógica tecnocrática na medida em que os partidos políticos disputam quem melhor executa políticas públicas, e não quem melhor representa uma visão clara de sociedade. O debate político é assente na gestão e eficiência, afastando-se de discussões aprofundadas sobre o modelo de Estado, justiça social ou redistribuição de riquezas. 

No entanto, as eleições internas do PAICV introduziram novos elementos. Assumindo abertamente os seus ideais de esquerda, defendendo com clareza o papel ativo do Estado na economia, o reforço das políticas sociais e a redução da carga fiscal, as propostas dos candidatos, designadamente de Francisco Carvalho, recentemente reconduzido ao 2º mandato  à frente da Câmara da Praia, repercutiram sobretudo pela nítida intenção de trazer á ribalta um debate com alguma clivagem ideológica. Na sequência de algumas promessas apelidadas por alguns como “mirabolantes”, surgiram várias publicações e artigos nos quais as palavras de ordem estavam invariavelmente relacionadas ao populismo, demagogia, conveniência eleitoral, utopia, entre outros argumentos no sentido de desconstruir e, por conseguinte, apresentar outras visões/soluções. 

Independentemente de serem viáveis ou não, é inegável o facto destas promessas terem rompido com a tendência de homogeneização programática e quebrarem a monotonia do discurso político tradicional. O simples fato de se estar a discutir, novamente, o papel do Estado, a justiça distributiva, a orientação das políticas públicas e a função dos partidos políticos no processo democrático já representa um sinal de vitalidade do sistema. Talvez ainda não estejamos perante um renascimento ideológico, se é que este alguma vez tenha existido no cenário político nacional. Entretanto há, pelo menos, indícios de inquietação, de que setores da sociedade e dos quadros partidários anseiam por algo mais do que slogans vazios e promessas recicladas. Precisamos de debate. Precisamos de visão. Reconhecer esta necessidade, por si só, já é um passo importante.

Á meu ver, são precisamente estes debates saudáveis, baseados em ideias e argumentos sólidos, que devemos fomentar no seio dos atores políticos e da sociedade civil no sentido de, conjuntamente, pensarmos os próximos 50 anos do nosso país. 

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Ailton Santos

Ailton Santos

Formando em Relações Internacionais e Diplomacia.

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