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MULHER-REI, Gina Prince-Bythewood (2022)
Um dos maiores blockbusters de 2022, este é daqueles lançamentos sísmicos que nos provam o quanto um filme reflete a dimensão sociopolítica do seu tempo. Com os mesmos predicados que Pantera Negra, mas com um pouquinho menos de hype (recorte de género falando?) a Mulher Rei é a confirmação da era Hollyhoowdiana de investir em consumidores da comunidade negra, e de trazer para as grandes telas filmes com narrativas afrocentradas, criando arquétipos e novos inconscientes coletivos onde figuram imagens de uma negritude fora da estigmatização e racialização subalternizada costumeira. É por isso que antes de qualquer comentário ao formalismo, é indispensável figurar este épico de ação no seu campo extra-fílmico, que para mim é, na verdade, o seu maior atributo. À parte disso, não temos muito por onde fugir. Afinal é um produto de cultura industrial, atulhado de lugares-comuns e previsibilidades, com toda a gramática da jornada de herói (e vá, um excelente estudo da personagem Nanisca protagonizada pela magnífica Viola Davis). Não que se trate de uma produção desleixada. Considerando que é uma reencenação histórica das Guerreiras do Exército do Reino de Daomé (atual Benin), consegue dizer tudo aquilo que quer e vingar o seu revisionismo histórico (represpectiva a posição africana diante da colonização escravocrata transatlântica), e é suficientemente esmerado no design de cena (filtra bem os costumes e modos daquele povo). Mas…. uma pitadinha de mais originalidade não faz mal a ninguém.
MIDSOMAR, ARI ASTER (2019)
Midsommar é daqueles filmes que levam o seu tempo. E sabe levá-lo. Sabemos que há um periclito que está eminentemente a desembrulhar e que as coisas não vão terminar pelo melhor. Na verdade, o inteligente foreshawding nos dá um senso de previsibilidade e de antecipação em relação às personagens sobre as possibilidades de temor. Mas é nessa mastigação que vamos ficando quase que entorpecidos com os alucinogénios e pervertidos a tomar parte da catarse ritualística. A nossa ansiedade atinge picos agudos, muito por conta do puerilismo dissimulado que está contido na caracterização angelical dos hosters, e constantemente emoldurado numa fotografia graciosamente pictórica. Somos desmontados à luz do dia e, diante dos nossos olhos, o grotesco e o gore de uma tradição pagã de solstício de verão, vão por caminhos extremamente inesperados… Se no seu début Heriditary (2018, filmão, um dos melhores da década sem dúvida) era cedo para dizer que Ari Aster é um dos monarcas do terror contemporâneo, este é o tira-teimas.
Strangers on a train, Alfred Hitchcock (1951)
Apesar de não tão saudado na filmografia hitchcookiana como são “Vertigo” ,“Pyscho” ou “ Os Pássaros” , Strangers on a Train , que pode ser encontrado com título traduzidos por “Pacto Sinistro” ou o Desconhecido do Norte-Expresso”( um pior que o outro) é, 70 e poucos anos depois, uma verdadeira aula de como se faz cinema de suspense à séria. Um encontro furtuito entre dois homens num vão de um comboio, em que um deles propõe ao outro um tresloucado acordo de “permuta de assassinatos”, resulta num admirável jogo de double crossing, que têm a sublimação no trato fotográfico de cambiar as luzes e as sombras para reforçar as polaridades e nos fazer absorver a narrativa nos seus vários níveis semióticos. Destaque absoluto para a cena com efeitos práticos do carrossel, e das cabeças sincronizadas no jogo de ténis.
PIÉLES, EDUARDO CASSANOVA (2017)
Na era do hiperculto ao corpo, da obsessão pela imagem e dos imperativos da estética das aparências, filmes como Piéles se tornam baldes de água fria por nos colocar frente a frente com os “terríveis outros”. Mais incómodo se confessarmos que as nossas práticas de visualidades colonizadas (cinematograficamente idem) criam os nossos protótipos de idealização e de desejos, ditam e estabelecem as normas padronizantes, colocando ao exótico corpos deformados como indesejáveis. Nesta comédia dramática, o madrileno Cassanova, inspirado a partir do seu próprio curta “Eat My Shit” monta ao estilo de crónica, esquetes de várias personsagens, que à dada altura se linkam ao estilo de Magnólia, 21 Gramas, Pul Fiction, Babel, etc, com a diferença de que aqui as personagens possuem características… que rapidamente vamos descrever como bizarras e as tornam peculiarmente …irreais. E se há uma pontinha de exageros é porque a sátira é ácida, mas necessária. O toque apolíneo da simetria fotográfica e toda a coloração apastelada de roxo e rosa do ‘mise en scène’, conferem uma áurea onírica e surrealista que contrasta radicalmente com os afetos atribulados de cada personagem, tornando ainda mais interessante o processo de crítica à fetichisação do belo. Sem falar, claro, do notável trabalho de maquiagem.
Bullet Train, David Leitch (2022)
A cara da comédia de ação Bullet Train é mesmo a de um filme de entretenimento pipoqueiro – um punhadinho de atores vedetas, pancadarias altamente coreografadas, espadachins e tiroteios, matanças a todo vapor, e reviravoltas barulhentas. É verificável que Leitch traz o jeito bem seu de dirigir (que claramente flerta com a estética Tarantinesca), mas vemos lá a atribulação dos seus anti-heróis (John Wick, Atomic Blonde), o manejo da velocidade acelerada (tanto da narrativa como da condução de cena) que amadureceu no Spin Off do Velocidade Furiosa – Hobbs e Shaw, e aquele humor patetão de Dead Pool 2, filme que o colocou nas estrelinhas. Todavia, a falta de doseamento no humor, as conveniências do roteiro e da montagem que hora torna a distância entre as cabines dos comboios longínquas e demoradas de chegar, hora parece que tudo é lado a lado; hora as personagens são assassinos especialistas de alta performance, hora parecem amadores de primeira experiencia (proposital para o absurdo desejado, bem sei, mas incongruente no geral), hora os personagens japoneses falam seu idioma hora mudam para inglês (mesmo entre si)…e, bem nem vale a pena falar do o uso e abuso da estereotipia da cultura japonesa que não sai de samurais, animes e até contos zen…Mas se isso é, na verdade, tudo aquilo que ele pode oferecer, tá ok.2

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.







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