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Detive-me a pensar em como futebol não apenas molda subjetividades e regula comportamentos, mas também se afirma como uma poderosa indústria de entretenimento e uma máquina eficaz de manutenção da colonialidade, sobretudo em Cabo-Verde. Além disso, também aprofundei um pouco a percepção de como ele opera como reprodutor do machismo estrutural e se apresenta como uma estrutura de desejo reprimido, onde o homoerotismo se manifesta sob a capa da virilidade e da agressividade.
01.
Chega ser até fascinante reconhecer como o futebol opera sob a lógica da arena e se configura como um espaço de pulsões primárias. Olhemos para os estádios, vejamos como estão montados como sistemas de bancadas e oposições para que as rivalidades se instalem já na lógica uns-contra-os-outros, e a cena tenha lugar através da brutalização. Insultos, confrontos físicos e, em casos extremos, assassinatos e violações, são derivadas dessa tal paixão desportiva. Desse modo, dá para ver como o jogo vai além da esfera lúdica e metaforiza-se como um campo de batalha simbólico (ou nem tanto), onde o adepto-espectador não está lá só para assistir, mas viver e projetar-se na sua equipa, e por ela está disposta a morrer e a matar
Não é de hoje que eu olho para o futebol como um espetáculo de dimensões bélicas, no qual a lógica do confronto, da estratégia e da vitória sobre o inimigo molda a experiência coletiva. Nos estádios, a tensão e a rivalidade são mapas para catarse. É constatação pura como o adepto transfere para o futebol as suas frustrações, angústias e desejos reprimidos, criando uma identificação simbólica tão intensa que o clube deixa de ser uma entidade externa para se tornar uma extensão da própria identidade. De jeito nenhum: um jogo não é apenas um jogo – é um campo onde se disputam pertencimentos, lealdades e hierarquias emocionais. Essa fusão identitária pode gerar estados de exaltação quase alucinatórios, que leva esses indivíduos a comportamentos irracionais. Quem nunca viu o tio do bar passado da cabeça?
Outrossim, essa encenação da guerra a que me refiro ultrapassa o campo de jogo e estrutura-se como uma indústria bilionária que opera através da exploração das emoções e da alienação das massas. As grandes ligas, os contratos publicitários e os direitos de transmissão movimentam cifras astronómicas, consolidando o futebol como um dos maiores pilares do entretenimento global, ao mesmo tempo que reforçam a sua dimensão de ferramenta de controle social. O adepto, imerso nesse universo, entrega-se ao clube como a um exército simbólico. Consome produtos, sustentando monopólios mediáticos e participando ativamente de uma estrutura que mercantiliza a sua própria paixão. Então algo que se anuncia como mera paixão acaba por se tornar um mecanismo de alienação, onde a identidade coletiva é explorada por meio dessa energia contestatória, que é canalizada para rivalidades fabricadas, afastando a sociedade de um olhar mais crítico sobre as suas próprias estruturas de poder. Enquanto uns se distraem, outros lucram. El capitalismo ma babies.
02.
Há alguma dúvida de que o futebol carrega consigo camadas profundas de colonialismo cultural? No contexto africano, e mais especificamente em Cabo Verde, essa operação está nas barbas de toda a gente na devoção quase inquestionável a equipas portuguesas como o Benfica, o Porto ou o Sporting. Esta não é apenas uma questão de gosto ou afinidade desportiva, mas um sintoma de uma herança colonial que se estende para além das esferas políticas e económicas, infiltrando-se no imaginário cultural de todos nós.
Não é incomum ver cabo-verdianos a vibrar de forma animalesca com os triunfos do Benfica como se fossem seus, enquanto os clubes locais permanecem relegados a um segundo plano, sem o mesmo entusiasmo ou investimento emocional. O que está em jogo aqui não é apenas uma preferência clubística, mas uma hierarquia simbólica de valores culturais, onde o que é europeu continua a ser reverenciado e o que é local permanece desvalorizado. É o resultado de séculos de condicionamento, nos quais a narrativa colonial instituiu o europeu como referência de excelência e apagou progressivamente a centralidade das culturas autóctones. A paixão pelo futebol europeu não é apenas entretenimento; é um lembrete constante de que, na estrutura global do desporto, a centralidade ainda pertence ao antigo colonizador. Repito: o adepto cabo-verdiano, ao vibrar com um clube português como se fosse seu, participa inconscientemente de um jogo que reforça uma relação de subalternidade. Era bom fazer algumas perguntas tais como: que papel pode ter o futebol na desconstrução da colonialidade, ao invés de perpetuá-la? Talvez a resposta resida em um novo olhar sobre o desporto, um olhar que reivindique a valorização das equipas locais não apenas como um ato de resistência, mas como um gesto necessário para reequilibrar as forças de um jogo que, há demasiado tempo, tem apenas um lado a vencer.
03
Vendido como o epítome da virilidade e da competição masculina, o desporto mais popular do mundo carrega, engraçadamente, uma intensa dimensão homoafetiva e homoerótica. Dentro e fora dos campos, o futebol é um espaço onde os corpos masculinos são exaltados, onde afetos entre homens são expressos sem medo de represálias e onde a admiração e apreciação do corpo masculino é naturalizada sob o véu da paixão desportiva.
Homens coxudos em calções a correr atrás de uma bola para metê-la dentro de um objecto … hummm….A explosão muscular dos sprints, a virilidade dos confrontos físicos e a intensidade emocional da celebração de um golo festejado com abraços e amassos, parece quase um poema de Sade. Camisas coladas ao peito, abraços suados após o golo, toques constantes durante o jogo e até mesmo o ritual de troca de camisolas no final da partida, nem sei se continuo ….
Han, lembrei agora de Kimmel e a homossocialidade masculina: estratégias de esperteza dos sujeitos homens para se conectarem emocional e fisicamente sem que isso ameace a masculinidade normativa. Mas é claro que não podia estar carregado de paradoxo: um ambiente profundamente homossocial, repleto de gestos de intimidade entre homens, simultaneamente rejeita e marginaliza identidades queer. Vá-se lá entender a estupidez humana.
Funciona assim: os jogadores são admirados, comprados por valores milionários, seguidos obsessivamente em redes sociais e transformados em ídolos quase mitológicos. E quem realiza essa troca? Outros homens: dirigentes, empresários, treinadores, adeptos. O futebol, portanto, é um espaço de circulação de corpos masculinos dentro de uma economia do desejo que, embora nunca se nomeie como homoerótica, carrega consigo muitos dos seus traços fundamentais.
E onde ficam as mulheres nessa equação? O Futebol sempre foi um território masculinizado, e mesmo hoje, com o crescimento do futebol feminino, a centralidade do homem permanece. O jogo, assim, torna-se uma desculpa para que os homens passem tempo juntos, reforcem os seus laços e encontrem um espaço de afeto num mundo que frequentemente lhes nega essa possibilidade. É o domingo de futebol com os brodas. Suor, tapa na bunda, e banhinho juntos após os treinos. E sabem alguns o quê mais.

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.







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