O Novo Executivo e os Desafios Estruturais do Turismo em Cabo Verde

A tomada de posse do novo Governo de Cabo Verde, esta sexta-feira, abre um capítulo de renovada expectativa para o destino económico e social do nosso arquipélago.

No epicentro do debate público e das promessas eleitorais inscritas no Programa do partido vencedor, a seção 7.7.1 assume um papel de destaque inequívoco: a redefinição da estratégia para o Turismo, o verdadeiro motor da economia de Cabo Verde, que atualmente representa mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). As metas e as linhas orientadoras desta seção programática, conduzem-nos a uma reflexão crítica e profunda sobre o direcionamento futuro do turismo em Cabo Verde. Estaremos finalmente prontos para transitar de um modelo turístico meramente exógeno e focado no volume para um ecossistema assente na sustentabilidade e na valorização real das nossas comunidades?

Para responder a esta questão, o novo Executivo faria bem em analisar as evidências científicas que a academia tem produzido especificamente sobre o caso cabo-verdiano. A literatura recente coloca o dedo numa ferida há muito conhecida: o fosso entre o crescimento macroeconómico do setor e o impacto tangível no bem-estar quotidiano dos residentes.

Um dos principais nós cegos do turismo nacional tem sido o domínio absoluto dos resorts em regime de all-inclusive, concentrados sobretudo nas ilhas do Sal e da Boa Vista. O Programa do Governo aponta na seção 7.7.1 para a necessidade de diversificação e desconcentração da oferta, uma ambição que ganha suporte científico direto num estudo recente publicado na Tourism Planning & Development, Tourism Management e Tourism Management Perspective. A investigação demonstra que, em contextos dominados por grandes resorts, a perceção dos residentes sobre os custos e benefícios do turismo influenciam diretamente o seu apoio ou oposição ao Desenvolvimento Turístico Sustentável. O estudo sublinha que o empoderamento psicológico, social e económico da comunidade local são fatores determinantes para que os residentes vejam o turismo como um pilar essencial, contribuindo para o seu maior engajamento e desenvolvimento sustentável do setor. No entanto, o desafio da governação e da inclusão comunitária vai além da mera partilha de receitas. Conforme validado por estudos focados na ilha da Boa Vista, a eficácia do planeamento turístico depende criticamente de sistemas de governação eficientes onde a voz dos stakeholders locais e dos residentes seja genuinamente escutada e integrada na tomada de decisões.

Historicamente, Cabo Verde utilizou a atividade turística como uma via rápida para modernizar a sociedade e mitigar a dependência crónica de remessas e ajudas externas. O caminho para o sucesso desta nova legislatura exige a adoção de políticas que estimulem o que os especialistas chamam de “comportamentos pró-turismo” por parte da população local. Algo que só se consolida quando as condições económicas e os benefícios pessoais caminham de mãos dadas. Inquéritos estruturais realizados no nosso arquipélago confirmam que o apego à comunidade e a perceção de oportunidades reais de emprego e empreendedorismo são os alicerces do apoio à atividade turística pela comunidade local. Os residentes não podem ser vistos como meros figurantes ou prestadores de serviços periféricos, mas sim como co-criadores do produto turístico cabo-verdiano.

As intenções vertidas no programa de governação para o setor do turismo são louváveis no papel, mas a sua execução exigirá uma coragem política invulgar. É urgente descentralizar os fluxos para ilhas com enorme potencial cultural e ecológico ainda sub-explorado, aliviando a pressão sobre os ecossistemas insulares mais frágeis e redistribuindo a riqueza de forma justa.

As políticas a serem implementadas pela nova governação, que se iniciou na passada sexta-feira, não serão avaliadas pelo número de turistas que desembarcam nos nossos aeroportos, mas sim pela capacidade de transformar cada euro ou escudo gerado pelo turismo em qualidade de vida, habitação digna, educação e sustentabilidade para os cabo-verdianos. Se a secção 7.7.1 do Programa se traduzir em políticas concretas de empoderamento local, Cabo Verde poderá finalmente orgulhar-se de ter um turismo feito não apenas em Cabo Verde, mas para e com os cabo-verdianos.

 Santos, E., Pereira, L., Pinto, P., Ribeiro, M. A. (2025). Resident Empowerment in All-Inclusive Context: Cost–BenefitPerception and Support for Sustainable Tourism Development in a Small Island Destination. Tourism Planning & Development. https://doi.org/10.1080/21568316.2025.2605481

 Santos, E., Pereira, L., Pinto, P, Boley, B. (2024) Development and validation of the new resident empowerment through Tourism Scale: RETS 2.0. Tourism Management 104. https://dx.doi.org/10.1016/j.tourman.2024.104915

 Santos, E., Pereira, L., Pinto, P., Boley, B., Ribeiro, M. A., (2024). Imperialism, empowerment, and support for sustainable tourism: Can residents become empowered through an imperialistic tourism development model?”. Tourism Management Perspectives 53 (2024): 101270. https://dx.doi.org/10.1016/j.tmp.2024.101270

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Edson Santos

Edson Santos

Edson Santos é Professor na Universidade de Cabo Verde, Doutorado em Turismo. A sua investigação foca-se em políticas e gestão do turismo, perceções dos residentes e turismo sustentável.

Outros artigos