Quando o corpo pede pausa: O valor do autocuidado

Quando se concilia a criação de filhos, uma trajetória profissional exigente e a gestão do lar, o tempo dedicado a si mesmo torna-se um bem escasso e precioso. O foco recai, com frequência, sobre o outro, em fazer pelo outro, em doar-se constantemente.

Entretanto, nos esquecemos de que o bem que oferecemos ao outro depende, antes de tudo, do equilíbrio e bem-estar que cultivamos em nós mesmos.

Quando tomamos a decisão de migrar para outro país, estava ciente que não seria uma jornada simples, e que, inevitavelmente, aspetos do meu próprio ‘eu’ acabariam por ser relegados a um segundo plano.

E eu não estava enganada. Em Cabo Verde, contava com uma rede de apoio que me permitia usufruir do que, para mim, representava verdadeiros “luxos”: praticar atividade física, cuidar da aparência ou, simplesmente, permitir-me o descanso.

Neste novo contexto, a realidade assume contornos bastante diferentes. Sou eu, meu marido, os filhos, e uma rotina marcada pelas exigências simultâneas da vida profissional e doméstica.

Só que, mesmo na presença de um companheiro que partilha ativamente as responsabilidades há responsabilidades que, pela condição de sermos mães e mulheres, recaem quase exclusivamente sobre nós

No início, a exaustão emocional era tão grande que repercutia diretamente no corpo, mostrando o quão é estreita a conexão entre mente e físico.

Sofria de insônias persistentes, que desencadearam um ciclo de estresse, irritabilidade e queda significativa na produtividade profissional, até que, em determinado momento, um episódio de esgotamento físico e mental forçou-me a repousar durante cinco dias.

Era o corpo a pedir, silenciosamente, por uma pausa e uma introspeção sobre o quanto precisava cuidar de mim.

O cenário era de absoluto desequilíbrio. A minha alimentação era desregrada, sem horários definidos ou qualquer critério nutricional; não praticava qualquer exercícios físicos e, há mais de um ano, eu não realizava sequer uma consulta médica, em especial a ginecológica, cuja frequência ideal, segundo os especialistas, é de seis em seis meses.

Decidi mudar, motivada pelo bem-estar da minha família, mas, acima de tudo, impulsionada pela necessidade de me reencontrar.

Inscrevi-me em um ginásio, agendei uma consulta com a nutricionista e solicitei ao meu médico de família a atualização de todos os exames de rotina. Admito que, no início, o processo foi doloroso.

Foi necessário realizar ajustes significativos na alimentação. Mudanças que, em determinados dias, me faziam sentir como alguém em síndrome de abstinência, tamanha a intensidade do impacto físico e emocional.

Mas já não havia espaço para desculpas, era o momento de uma mudança que, para mim, parecia quase extrema, mas absolutamente necessária.

Desde então, ainda que a rotina seja por vezes acelerada, procuro dedicar pelo menos trinta minutos a uma caminhada na esteira. Eliminei os doces da dieta, reduzi significativamente o consumo de carboidratos, limitei o tempo diante das telas e dos conteúdos que consumo nas redes sociais e retomei os cuidados com minha aparência.

Essas transformações comportamentais começaram a refletir-se em mudanças concretas e positivas: passei a dormir melhor, sinto-me menos exausta, mesmo nos dias mais intensos, tenho mais energia para enfrentar as longas jornadas familiares, principalmente no que toca à paciência para ajudar o meu filho com as tarefas escolares, além de uma performance profissional mais produtiva.

Aliás, vale destacar que é justamente durante os treinos que os meus insights mais criativos costumam surgir.

Não devemos procrastinar o cuidado com o nosso próprio bem-estar. É comum que aqueles que colocam seu “eu” em primeiro plano sejam rotulados como egoístas, mas é preciso compreender que há implicações sociais significativas quando um indivíduo não se encontra em equilíbrio físico e emocional. 

Já ouviram a expressão “pessoas felizes não incomodam ninguém”? Pois creio que ela se aplica perfeitamente aqui: o autocuidado é também, ou pelo menos deveria ser, um ato de responsabilidade coletiva.

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Denise Fernandes Teixeira

Denise Fernandes Teixeira

É esposa e mãe licenciada em Marketing Turístico que começou a sua carreira profissional como jornalista. Foi assessora de comunicação e marketing numa instituição pública, mas a sua verdadeira paixão é a investigação criminal. Hoje é uma emigrante que se prepara para mudar totalmente de área - a advocacia.

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