Quem nos diminui também usa salto alto

Há uma narrativa confortável que repetimos todos os anos no Mês da Mulher: mulheres devem apoiar mulheres.

É bonito. É mobilizador. É vendável.

Mas não é sempre verdade.

Nem toda a relação entre mulheres é rede.

Algumas são competição disfarçada. Outras são controlo travestido de cuidado. E há ainda as que sobrevivem à custa da diminuição subtil da outra.

Aquela ironia “inofensiva”, aquele comentário sobre o corpo, a maternidade, a carreira, o casamento.

Chamamos a isso franqueza. Mas muitas vezes é insegurança.

A conversa pública gosta de apontar o dedo ao machismo estrutural, e deve.
Ele existe. Mas é intelectualmente desonesto fingir que toda a desvalorização feminina vem de fora.

Parte dela circula entre nós. Em jantares. Em grupos de mensagens. Em ambientes profissionais onde a mulher que cresce passa rapidamente de “inspiração” a “ameaça”.

Pensemos numa situação simples: uma mulher abre um negócio: um salão, uma loja, um serviço qualquer.
A qualidade é fraca, o atendimento descuidado, o resultado insatisfatório.

Ainda assim, espera que as amigas consumam por obrigação, em nome da lealdade. E quando uma delas opta por não voltar, ou sugere melhorias, a reação não é reflexão, é acusação.

“Não me apoias.” “Tens inveja.” “As mulheres nunca se ajudam.”
Mas apoiar não pode significar financiar incompetência. Amizade não é contrato de consumo obrigatório. E proteger o próprio dinheiro, o próprio tempo e os próprios critérios não é traição, é maturidade.

Em certos contextos laborais o mesmo acontece: uma mulher é promovida e, em vez de reconhecimento, surgem insinuações sobre favoritismos.

Uma líder estabelece padrões elevados e é rotulada de “difícil”, enquanto a mesma postura, num homem, é lida como exigência legítima. Uma colega apresenta resultados consistentes e, subitamente, a narrativa muda. Já não é competência, é “sorte”.

Este tipo de desvalorização não precisa de confronto direto, opera nos bastidores, em comentários velados, e na forma como o mérito é silenciosamente descredibilizado.

A mulher ambiciosa é “difícil”.

A disciplinada é “obsessiva”.

A que estabelece limites é “arrogante”.

Quem cria esses rótulos? Nem sempre são homens.
Há uma forma de rivalidade feminina que não grita, corrói. Não confronta, sabota. Não assume, insinua.

E o mais inquietante é que muitas vezes ela é normalizada em nome de uma suposta intimidade.

A romantização da sororidade tornou-se, em alguns casos, um mecanismo de silêncio.

Porque criticar comportamentos tóxicos entre mulheres parece trair uma causa maior. Como se denunciar deslealdade interna enfraquecesse a luta externa.

Mas maturidade não é lealdade cega.
É discernimento.

Crescer implica aceitar uma verdade desconfortável: nem todas as mulheres querem o nosso bem. Algumas querem a nossa companhia enquanto permanecemos no mesmo lugar. Outras preferem-nos acessíveis, disponíveis, pequenas.

E talvez um dos maiores atos de autonomia feminina não seja apenas ocupar espaços, e sim, abandonar relações que nos encolhem.

Não é falta de sororidade estabelecer limites.
Não é traição escolher paz.
Não é egoísmo recusar competição velada.

Empoderamento não é manter vínculos a qualquer custo. É ter coragem de reconhecer quando a proximidade virou peso.

No Mês da Mulher, talvez seja hora de amadurecer o discurso. Apoiar mulheres, sim. Mas apoiar mulheres íntegras, que celebram crescimento, que não medem valor por comparação, que não confundem amizade com posse.

Porque fortalecer mulheres não passa por slogans, passa por caráter.

E caráter não tem género, tem escolha.


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Denise Fernandes Teixeira

Denise Fernandes Teixeira

É esposa e mãe licenciada em Marketing Turístico que começou a sua carreira profissional como jornalista. Foi assessora de comunicação e marketing numa instituição pública, mas a sua verdadeira paixão é a investigação criminal. Hoje é uma emigrante que se prepara para mudar totalmente de área - a advocacia.

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