Ser Mulher: Entre a Dor e a Conquista

Lançaram-me o desafio de escrever um texto sobre o Dia das Mulheres e eu fiquei com a cara colada ao computador, sem ideias do que escrever. Há tantos assuntos quando se fala desta figura, mas ao mesmo tempo é tão difícil e, por vezes, tão doloroso falar sobre ela que não sabia para que direção levar este texto. Na verdade, ainda não sei. Por isso, vou deixar-me levar pelos meus pensamentos — e vamos descobrir.
Mulher

Já não me lembro se li ou ouvi uma vez uma mulher a dizer que, quando descobriu que estava grávida de uma menina, entrou em pânico, porque colocar uma mulher no mundo pode ser um desafio.

E, sinceramente, acredito que, a partir do momento em que nasces mulher, a tua vida é, muitas vezes, mais complicada do que a de quem nasce rapaz. Os desafios ao longo dos séculos foram mudando, mas a mulher começa a corrida alguns passos atrás só pelo facto de ser mulher.

Não porque seja menos capaz.

Não porque seja menos forte.

Mas porque, durante demasiado tempo, lhe disseram que era.

Ao longo dos anos, temos vindo a conquistar o nosso espaço num mundo onde as mulheres ganharam posições de destaque, de liderança e de competitividade perante os seus pares. Não foi por acaso, nem por favor. Foi por mérito, por persistência e por uma coragem herdada de gerações que não puderam sonhar tão alto.

Hoje vemos mulheres a liderar empresas, a governar países, a destacar-se na ciência, no desporto, na arte. Mulheres que provam, todos os dias, que competência não tem género. E cada conquista individual acaba por ser coletiva — porque, quando uma mulher avança, abre caminho para muitas outras. Deixámos de pedir permissão para ocupar espaços que sempre foram nossos por direito.

Mas, por outro lado, também vivemos uma realidade pesada e difícil de ignorar. Uma onda de mulheres sobrecarregadas com obrigações familiares, muitas vezes a gerir sozinhas aquilo que deveria ser partilhado. Famílias monoparentais onde a mãe carrega os filhos às costas — emocional, financeira e fisicamente — sem o apoio de quem deveria caminhar ao seu lado.

Vivemos num tempo em que se fala de igualdade, mas onde a balança continua, tantas vezes, inclinada. A exigência é constante e o descanso é um luxo raro.

E, ao mesmo tempo, assistimos a um aumento brutal dos casos de feminicídio, em todo o mundo e em todas as classes sociais. Mulheres que continuam a ser vistas como propriedade, como objeto, como algo que se possui — e não como pessoas livres, com vontade própria, com voz, com direito a dizer “não”.

É impossível falar do Dia da Mulher sem falar também desta dor. Sem reconhecer que ainda há medo onde deveria haver segurança. Que ainda há silêncio onde deveria haver justiça.

Mas, independentemente de qualquer coisa — da posição que uma mulher ocupa na sociedade, das escolhas que faz, de ser considerada uma mulher de sucesso ou dona de casa, de ser mãe ou de optar por não o ser — uma mulher consciente do seu valor já não aceita menos do que merece. E isso é o mais importante.

Porque a verdadeira mudança começa aí: na consciência. No momento em que a mulher percebe que não precisa de caber nas expectativas dos outros para ser suficiente. Que o seu valor não depende do estado civil, da profissão, do corpo, da idade ou da opinião alheia.

Quando uma mulher reconhece a sua força, deixa de se encolher para caber em espaços pequenos demais. Deixa de pedir desculpa por existir. Deixa de aceitar migalhas emocionais, profissionais ou sociais.

E talvez seja essa a maior conquista de todas — não a posição que ocupa, mas a certeza de que merece respeito, dignidade e igualdade. Sempre.

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competências em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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