Santo Antão, 562 anos de história e superação

Santo Antão, a ilha mais a norte de Cabo Verde, celebrou, no dia 17 de Janeiro, 562 anos após a sua descoberta.

Se inicialmente, toda a ilha foi apenas “registada” e transformada em um espaço de criação à solta de gado caprino, para a produção de carne salgada a ser exportada para o Reino de Portugal, anos depois, principalmente depois de 1732, com a criação do Vila da Ribeira Grande e a implementação da administração camarária, a ilha ganhou um novo fôlego.

Mais do que um espaço rural para criação extensiva e produção agrícola, a ilha passou a estar organizada por uma administração, local e eclesiástica, essencial para dinamizar o sistema de povoamento da mesma.

Se do lado norte da ilha, devido às condições climatéricas, foi possível estabelecer vilas com casarões em Ponta do Sol e Povoação e algumas fazendas nos vales de Ribeira da Torre, Paul e Ribeira Grande, do lado Sul, a aridez da paisagem lunar não possibilitou grandes avanços ao nível da agricultura, tendo apenas sobressaído a antiga Vila do Porto dos Carvoeiros, atual Cidade de Porto Novo, que graças à sua posição e costa marítima, permitiu a criação de um porto de atracagem de navios que ligavam a ilha as demais, pese embora, uma boa parte da população de então vivia nas grutas esculpidas na paisagem de pozolana e outros sedimentos que caraterizam a geologia do município do Porto Novo.

Historicamente marcada por vários fenómenos naturais e por elevações e revoltas sociais, a ilha de Santo Antão, sempre marcou o seu ritmo nas tomadas de decisões e nas mudanças necessárias para cada período.

Desde a revolta de Pau de Café no Paul, marcada pela manifestação dos agricultores contra os maus tratos e as injustiças dos administradores da ilha, que culminou com um batalhão na Vila de Ribeira Grande, passando pelas elevações e manifestações dos moradores dos outros vales e achadas da ilha que concentraram à frente da Câmara Municipal e da Sede Administrativa dos Regedores, para protestarem contra o abandono e a exploração a que estavam sujeitos, até a mais recente, a elevação do 31 de Agosto de 1981, que culminou com um verdadeiro massacre na zona de Coculi e outros territórios
da ilha, as Gentes de Santo Antão sempre tiveram os pés assentes no chão.

De uma ilha periférica durante mais de 540 anos, nos últimos 20 anos, a ilha de Santo Antão ganhou um novo resplandecer, graças à tenacidade das suas gentes, que independentemente das imposições e dificuldades que a própria geografia da ilha coloca, têm sabido contornar as escarpas das montanhas e os vales para levar a bom porto o destino da ilha.

Hoje a ilha, que dá mais uma volta no ciclo da vida, tem uma outra perspetiva, longe daquela do século passado. Ela está dotada das infraestruturas bases e impulsionadoras do desenvolvimento, tendo na agricultura, pecuária e no turismo de natureza, as suas principais fontes de renda.

Em tempos de comemorações de Liberdade e Democracia e dos Heróis Nacionais, é preciso que os homens de barba tesa, que habitam os vales, as encostas e ribeiras da ilha exigem mais de quem toma as decisões.

É preciso que os decisores, junto da população, façam as infraestruturas funcionarem e que melhorem muitas práticas e decisões que têm influenciado negativamente o crescer da ilha. É preciso que haja mais justiça social e mais políticas públicas voltadas para o desenvolvimento integrado da ilha.

Enquanto se espera por mais e melhor na ilha de Santo Antão, as suas gentes continuam humildes e trabalhadoras, preservando a sua essência e os valores da amizade, da boa vizinhança e do djuntamon, com a famosa troca de pratos, enquanto esperam, pacientemente, que os frutos do seu trabalho agrícola sejam transportados para as outras ilhas.

Parabéns Santo Antão, por mais um aniversário!

Parabéns por permitir que suas gentes habitem tuas encostas e que nelas produzem o suficiente para comerem e para partilhar com que te visita!!!

Parabéns por toda a sua história e pelas estórias e mitos que contam sobre ti…és graciosa e majestosa!!!

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Adilson Dias

Adilson Dias

Gestor de Património Cultural. Natural da ilha de Santo Antão, filho da zona de Espongeiro, sou um apaixonado pela cultura cabo-verdiana e sua riqueza patrimonial. Sempre atento a realidade do meu país, tenho nos museus a minha fonte de conhecimento e de inspiração para analisar e perceber as dinâmicas socioculturais de Cabo Verde, com especial atenção às minhas ilhas de Santo Antão e Santiago.

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