Cabo Verde: Entre a Identidade Africana e a Identificação Europeia

De quando em vez levanta-se esta questão sobre a nossa crioulidade, identidade africana e identificação europeia. Esta é uma questão tão importante no dia-a-dia do cabo-verdiano que se torna numa não-questão. Mas, por uma ou outra razão, estoura a bolha e chovem comentários de vários lados. Incluindo o meu aqui.

Como se sabe, Cabo Verde encontra-se geograficamente distante do continente africano, mas intimamente ligado a ele através de laços políticos, culturais e históricos. Cabo Verde não está no continente africano, mas faz parte deste projeto político, cultural e histórico que é África. Fisicamente, Cabo Verde está separado do continente africano pelo vasto Oceano Atlântico, mas esta conexão com África não se pode negar. Esta pertença continental transcende a geografia e abraça as complexidades da identidade e da política, que o faz membro da União Africana, participante de iniciativas pan-africanas, engajado em questões que afetam o continente africano, para além de demonstrar a sua solidariedade (dentro das suas possibilidades) e compromisso com o projeto político de África, beneficiando-se de acordos comerciais voltados para o continente africano.

Mesmo sem querer, os desafios enfrentados por Cabo Verde, como as questões climáticas, o suão e o pó-di-terra que vem lá do Sahara, a gestão de recursos hídricos e o desenvolvimento sustentável, são compartilhados com muitas nações africanas, fomentando uma busca comum por soluções e estratégias de resiliência.

Das nossas culturas, emerge uma fusão cultural única que compartilha raízes profundas com a África, Europa e América Latina. Essas culturas que se manifestam diariamente pelas ilhas e sua diáspora (incluindo aquelas que sofrem críticas pela sua identificação ‘pouco africanizada’) enriquecem a diversidade da nossa África. Somos essas diversidades de culturas e é isso que dá a cada um essa definição inclusiva de pertença que vai além das fronteiras físicas de Cabo Verde ou de um África/Europa.

O que não se pode negar é que as pessoas expressem as suas culturas através de um conjunto de características culturais, históricas, linguísticas e sociais que vão definir este nosso povo crioulo. Esse conjunto de identidades individuais são compartilhados para criar um senso de “nós” que é dinâmico e influenciado por fatores internos e externos. E essa identidade é maioritariamente africana. Mas, aqui poderá residir o desafio: se a identidade é maioritariamente africana, já a identificação é ela maioritariamente ocidental/europeia. A identificação é o processo pelo qual o cabo-verdiano faz uso para ser reconhecido por outros dentro e fora do grupo. Isso pode incluir o reconhecimento de características físicas, a prática de tradições culturais, religiosas, formais, de vestuário, arquitectura, aspectos legais e oficiais, etiqueta, protocolo, alimentação…

Claro que o facto de ter uma identidade africana e uma identificação ocidental/europeia não significa que o outro vá ver ou classificar o cabo-verdiano ou o grupo de cabo-verdianos como europeu. É aqui que reside parte da nossa beleza cultural e confusão da nossa posição no Mundo. É isso que faz com que cabo-verdianos nas redes sociais acusem outros de serem pouco africanos e quando se entra nos seus perfis nota-se que todas as formas que usam para se identificar para o mundo virtual são sinalizar traços ocidentais/europeus. Nós somos um povo intrinsecamente confuso com uns a tentar dominar através das narrativas. Essa identidade e identificação nem sempre se realizam ao mesmo tempo na pessoa. Ou seja, a identidade é mais estática enquanto a identificação é mais dinâmica e tem interferência na forma como o crioulo relaciona-se consigo próprio, com os outros, com o meio que o envolve e até com o intangível.

Contudo, gosta-se ou não, ao analista cabe o dever de ler a sua realidade e não de criar uma realidade ideal.

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Dai Varela

Dai Varela

Gestor de Imaginário, Escritor, Produtor Cultural, Gestor de Conteúdos e Coordenador Nacional para Cabo Verde da Iniciativa Africana de Artistas para a Paz - AAPI. Formado em Ciências da Comunicação - Jornalismo e Docente Universitário desde 2012. Com interesse especial pela produção para a infância através da JOVEMTUDO Cabo Verde.

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