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Se Guy Debord, em sua obra La société du spectacle (1967), já denunciava a alienação e a perda de autenticidade nas relações humanas mediadas pela imagem, hoje em Cabo Verde observamos uma realidade não muito diferente. Efetivamente, surgem algumas questões que merecem ser descortinadas: até que ponto a sociedade cabo-verdiana está-se transformando numa sociedade voltada ao espetáculo mediático? qual uso tem sido dado às redes sociais em Cabo Verde? qual o nível da nossa opinião pública?
Indubitavelmente, o advento das redes sociais implementou uma nova dinâmica na política cabo-verdiana. Questões que antes pertenciam a uma esfera de discussão restrita a elites ou círculos especializados, hoje podem ser amplamente debatidas nas plataformas digitais. No entanto, essa ampliação do espaço público tem revelado uma conjuntura preocupante: a política está sendo reduzida a uma sucessão de polêmicas e escândalos envolvendo instituições públicas, partidos políticos e personalidades, muitas vezes centradas em ataques pessoais e desinformação, gerando uma chuva de comentários prós e contras.
O que deveria ser uma arena de troca de ideias cede espaço a uma guerra de imagens na qual as trocas de farpas são mais visíveis do que qualquer discussão substancial sobre propostas concretas. Os militantes dos partidos políticos se assumem como protagonistas de narrativas muitas vezes distorcidas, em que as questões ideológicas e as propostas de políticas públicas são eclipsadas por estratégias de desgaste pessoal. Para mim, parece fazer sentido a afirmação do autor Schwartzenberg na qual diz que “a política outrora, era de ideias. Hoje, é essencialmente sobre pessoas, ou melhor, personagens”.
Daniel Boorstin, no seu livro The Image (A imagem) diz que a espetacularização do poder político e da política se define pela assunção, sem mais, de uma inevitável lógica produtiva da mídia, sempre impregnada e comandada pelo entretenimento, sobre a política, desvirtuando seu ser. A ascendência da lógica mídia-entretenimento sobre o dispositivo da política – inexoravelmente levaria o poder político e a política a uma “despolitização”. Ou seja, a serem dirigidos por outras dinâmicas não oriundas do poder político e/ou da política, mas criadas pela mídia-entretenimento, Desta forma, a política na mídia não mais se faz como política, mas se despolitiza, passando inevitavelmente a obedecer a padrões de produção da mídia e do espetáculo.
É certo que, cada vez mais se investe no digital porquanto é natural que haja essa adaptação aos novos tempos, entretanto denota-se que estas ferramentas não estão a ser utilizadas de forma idónea e com sentido de responsabilidade. O cerne da questão é que a excessiva espetacularização/mediatização da política tende a conduzir à banalização e à descredibilização generalizada da classe política, aliás o aumento da abstenção é um reflexo de um desinteresse cada vez maior pela política pois o público, mormente os jovens, já não se sente representado, nem mesmo engajado.
Há, no entanto, um paradoxo. Pese embora muitos critiquem e denunciem as falsas narrativas e a banalização da política, a verdade é que boa parte da população se alimenta delas. O consumo de polêmicas, ataques e desinformação se tornou um hábito na nossa sociedade. Neste cenário, podemos concluir que o problema não está somente nos atores políticos, mas igualmente na forma como exercemos a nossa participação cívica. Quando a política se torna um jogo de imagens, muitos se sentem desiludidos e afastados, como se suas vozes não fossem mais ouvidas. O engajamento político genuíno é substituído pela passividade do espetador, que assiste aos conflitos sem se envolver de maneira significativa. O tempo investido nas redes sociais, não raras vezes, em vez de fomentar o debate saudável, acaba alimentando o conformismo e a desinformação.
A crise da política cabo-verdiana é também a crise da sua opinião pública. Nestes 50 anos de independência nacional é preciso urgentemente recuperar a essência da política conjugando as sinergias no sentido de enfrentar os desafios que se colocam para os tempos vindouros.








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