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Como afirmou Pereira (2001, p. 153), o crioulo “é a doce língua da mãe, das estórias, dos provérbios, dos pensamentos mais íntimos, da poesia em verso ou em prosa, que se diz ou escreve”. Ou seja, nossa liberdade foi, antes de tudo, linguística. Antes de ser um ato jurídico, ela nasceu crioula. “El é di nós”, é nossa bandeira, não escrita na Constituição, mas proferida por todos e cantada por diversos artistas.
Como bem afirmou o combatente da liberdade e da pátria, Amílcar Cabral, “a cultura é arma de luta” (Cabral, 1974). O crioulo foi e é nossa maior arma, uma luta que se desenvolve no campo sensível, não no campo dos fuzis, mas com a gramática da dor e da esperança. A filosofia em forma de lamentação, presente nas mornas escritas em crioulo, “fala do que parte, do que falta e do que fica”. De boca em boca, forma-se um tratado ontológico que carrega a cosmologia de um idioma que não se encontra no Google Tradutor, mas que resistiu à seca e à fome e fincou raízes nesse chão árido dessas ilhas.
A filosofia do crioulo é, por sua vez, uma filosofia da saudade, das partidas e das experiências. Ela é gerada e acalentada, vivida, sentida e cantada: uma epistemologia da travessia. Como salientou Boaventura de Sousa Santos, na “epistemologia do sul”, que historicamente foi subjugada pelo pensamento eurocêntrico, o crioulo não fica de fora desse processo. Mais do que nunca, chegou a hora de fazer justiça epistêmica, de reconhecê-lo.
A língua que se originou nas margens do poderio do império criou raízes. Não pediu permissão ao senhorio, nem à academia. Segundo João Lopes Filho (1997, p. 14), “foi esse pidgin que o tempo se encarregou de aperfeiçoar que terá dado origem à atual língua cabo-verdiana”. Nasceu da necessidade de um povo fragilizado e marginalizado. Em meio às correntes do colonizador, nossos ancestrais, mesmo oprimidos, souberam criar um mundo onde dialogavam e que se estende até nós, como “a melhor forma de o povo se expressar, mostrar a sua alegria, a sua dor, os seus anseios, os seus sonhos” (Mourão, 1986, p. 422).
Manter a língua cabo-verdiana viva é continuar a história deste país que nem sempre se encontra nos mapas. O conceito de “crioulização”, segundo Glissant (1997, p. 14), reflete um processo heterogêneo não apenas linguístico, mas também cultural, emocional e filosófico. É manter esse mundo de resistência, onde cabe cada um de nós, onde nos liga ao embrião que nos gerou: Cabo Verde, terra querida. Não é um simples “dialeto”, é nossa identidade, uma linguagem filosófica, ética e estética.
Em 5 de julho de 1975, a independência da República de Cabo Verde foi solenemente proclamada. Passaram-se 50 anos, e precisamos, mais do que nunca, de uma segunda independência: a da linguagem institucional. Um espaço onde todos se comunicam e se deixam ser comunicados, onde todos falam e são compreendidos.
Ainda hoje, o crioulo é tolerado, mas não reconhecido, e continua a ser subalternizado. Nossas leis ainda estão na língua dos “Tugas”, mas nosso pensamento está em nossa língua. É mais do que urgente que o Estado reconheça a língua em que o povo pensa, uma língua soberana. Uma língua que não fique somente nas ruas, mas que esteja nos manuais, nas leis e nos tribunais. A oficialização do crioulo não é um favor, é dignidade.
Cinquenta anos. Cinco décadas. Meio século. Já se passaram. Um longo caminho já foi trilhado. A liberdade passa pela coragem de legitimar o que já é legítimo no coração de cada cabo-verdiano. Crioulo não é memória. É projeto, é futuro. No dia em que tivermos a coragem de escrever nossa história e nossa constituição em crioulo, de ensinar filosofia a partir das mornas, do batuque, das coladeiras, talvez, nesse dia, a independência falará com a voz que fez nascer esta nação.
Viva independência!
Referências:
CABRAL, Amílcar. A cultura nacional: Libertação nacional e cultura. Portugal: Editorial Avante! 1984.
GLISSANT, Edouard. Traité du tout monde. Paris; Gallimard, 1997.
LOPES FILHO, João. Cabo Verde, subsídios para um levantamento cultural. Lisboa: Plátano editora, 1997.
MOURÃO, Fernando A. Albuquerque. Elementos do processo da Identidade cabo-verdiana. In: Simpósio Internacional sobre Cultura e Literatura Cabo-verdiana. Ministério da Cultura- Mindelo. 1986.
PEREIRA, Dulce. Fala Crioulo Papia Português. Revista Kultura: Revista de Estudos Caboverdianos, Praia, Instituto Nacional de Investigação e Cultura, nº Especial, p. 153-165, set. 2001.
Originário de São Vicente, com formação académica em Filosofia e atualmente a realizar uma nova graduação na área de Teologia. "Ser o que se é, falar o que se crê, crer no que se prega, viver o que se proclama até às últimas consequências". Yekini.kiny@gmail.com







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