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Ainda que o mundo esteja ligado o tempo todo na internet, a conexão humana tem se mostrado fraca, diria eu, quase se extinguindo. Não obstante a violência das guerras civis que mostram a falta de humanidade, a violência digital nos tem mostrado o quão mesquinho e maldoso se tem revelado o ser humano, que muitas vezes se esconde atrás de um perfil falso, para ameaçar, humilhar, intimidar, extorquir e intimidar as vítimas.
Para abordar este tema, vou concentrar-me nas partilhas que recebo nas palestras, tanto nas escolas em Cabo Verde como além fronteiras, por se tratar de um tema transversal.
Infelizmente, nos últimos anos, a escola tem sido cada vez mais vítima de todos os tipos de violências. Isso, por si só, já gera um quadro de ansiedade e depressão, tanto nos alunos como em todos que fazem parte da estrutura escolar, devido ao aumento expressivo do acesso à internet tanto por alunos, quanto por pais e professores. É inegável que a internet facilita o acesso à informação. Por outro lado, trata-se também de um ambiente de muita disseminação de desinformação e discursos de ódio.
Os principais tipos de violência digital incluem o cyberbullying, stalking (perseguição), extorsão, pornografia de vingança, e aliciamento sexual online, cada um com os seus impactos devastadores na vida das vítimas, como danos psicológicos, isolamento social, automutilação, baixa autoestima, e em alguns casos mais graves, depressão ou a tentativa de suícidio. Esses tipos de violência podem ter consequências graves ao longo da vida das vítimas.
Numa das palestras que ministrei, uma jovem partilhou comigo a uma situação de pornografia da vingança, a qual ela foi exposta pelo ex-namorado.
“Uma pessoa com quem me relacionei por dois anos, criou um perfil falso para falar mal de mim nas redes sociais, só porque eu já não queria continuar a relação. Espalhou que eu ficava com vários rapazes ao mesmo tempo, e essa situação causou-me vários constrangimentos. Eu não sou santa, ninguém é, mas eu tenho a minha consciência tranquila. Eu já tive alguns namorados, mas foi um de cada vez, até porque eu sou contra a traição. O problema é que quando são os homens a terem mais de uma namorada ainda que todas ao mesmo tempo, são considerados “garanhões” e quando são as mulheres, mesmo que tenham um homem de cada vez, são chamadas de “putas”. Se eu pudesse escolher eu não ia ter vários namorados, o problema é que eu não aguento abusos desses rapazes machistas, por isso, prefiro terminar a relação e amar seguir em frente.
Quando ele percebeu que os boatos não estavam a afetar-me partilhou uma fotografia intima, com alguns amigos, e eles próprios começaram a chamar-me todo o tipo de nomes obscenos. Eu tenho a certeza que foi ele, porque foi apenas com ele que eu cometi a insanidade de confiar e permitir ser fotografada num momento íntimo, com a promessa de que ele iria apagar logo de seguida, e apagou, eu vi, mas com certeza recuperou a foto depois. Sinceramente, bem feito para mim, para eu aprender a deixar de ser burra, de tanto ouvir e ver (pois, uma amiga minha já tinha passado por uma situação idêntica), ainda assim o fiz. Eu penso assim, a pessoa tem a opção em não clicar no botão “enviar”, e decide mesmo assim fazê-lo, mesmo tendo consciência de que o ato terá graves consequências na vida da vítima. Se eu puder deixar um conselho para outras jovens, eu diria para não confiarem a sua intimidade com absolutamente ninguém, porque o estrago que é feito na nossa vida, depois de termos a nossa intimidade exposta, não há como recuperar a nossa dignidade.”
Assim como essa jovem, muitas outras têm passado pela mesma situação. A pornografia da vingança tem feito “escola”, na sociedade cabo-verdiana. A exposição e humilhação às quais elas são submetidas são imensuráveis. A forma como são expostas as vidas afetivas-sexuais, nos remete a uma narrativa clara: ser uma mulher que se envolve com quantas pessoas quiser é visto socialmente como motivo de vergonha. Pior ainda se a mulher atrever em se divertir, sentir prazer e viver o que ela bem entender livremente, é visto como algo horrendo e deveria ser punido publicamente. As violências narradas na partilha dessa jovem, não são novidades. É uma postura ancorada em discursos antigos de misoginia, que, nos dias de hoje, se revestiu de uma roupagem tecnológica e rapidamente se dissemina pela internet.
A experiência de campo que tenho vindo a ter com as meninas e as mulheres, deixa-me em constante estado de alerta como mulher e mãe; de que nossos direitos e nossa liberdade não estão garantidos, nem mesmo para as próximas gerações. A internet está disponível para todos, assim como a violência. Que cada uma e cada um de nós, saiba fazer as escolhas que nos engrandecem enquanto seres humanos, e dar um basta na violência digital.
Com a experiência que eu tenho acumulado com a comunidade educativa, posso afirmar categoricamente que, o efeito dos discursos de ódio e do extremismo nas redes digitais está relacionado com o agravamento de quadros de depressão, ansiedade, automutilação e situações de violência nas escolas. Acredito que a resolução do problema da violência nas escolas só será possível através de diálogos deliberativos que envolvam formuladores de políticas públicas, pesquisadores, a comunidade escolar e representantes da sociedade civil, para juntos desenvolvermos estratégias eficazes voltadas para o ambiente escolar.
Os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres constituem uma campanha global que ocorre anualmente entre 25 de novembro (Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres), e 10 de dezembro, (Dia Internacional dos Direitos Humanos). Esta campanha visa mobilizar indivíduos e organizações em todo o mundo para prevenir e eliminar todas as formas de violência contra mulheres e meninas.
Em 2025, a campanha tem como tema principal a violência digital, sob o lema UNA-SE 2025 – Acabar com a violência digital contra todas as meninas e mulheres.
Denunciem. Nada é tão NOSSO quanto a nossa VOZ.
Mestre em Ciências Sociais, ativista social e Embaixadora Urbana da ONU HABITAT.







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