A Voz Lá de Dentro

Opinião Carla Palavra

A Voz Lá de Dentro

O diálogo interno (DI), é uma daquelas coisas que, estando sempre presente, passa muitas vezes despercebido, muito embora, no campo da psicologia seja sobejamente conhecido como um poderoso chefão dos estados emocionais que criamos.
Opinião
Carla Palavra

Há quem lamente que o currículo tradicional não comporte conteúdos ligados à educação financeira, habilidades de comunicação e tantas outras coisas.

Pela quantidade de gente que vejo enfrentar dificuldades em lidar com a voz lá de dentro, se eu pudesse atirar algo lá pra dentro (do tal do currículo tradicional), certamente andaria à volta disso. De se ganhar mestria nesse processo que ocorre de forma inconsciente e que detém alto poder de reforçar estados emocionais, por vezes menos possibilitadores, quando não destrutivos, ao longo do tempo.

Quem nunca reviu mentalmente uma discussão? Ou continuou, através do seu DI, a alimentar uma frustração ou uma agitação interna sem se dar conta ou, mesmo estando consciente, sentindo-se incapaz de sair desse lugar? Quem nunca se preparou para o pior cenário, aumentando a sua ansiedade, o seu medo e a possibilidade de falhar em situações importantes? Duvido que sejamos poucos…

O DI pode revelar nuances profundas sobre o estado emocional de uma pessoa, ao mesmo tempo que pode ajudar a produzi-los e, quando penso na importância que ele assume, sempre me vem à memória a história de um colega que, certo dia, se deu conta de uma carga de agressividade surpreendente na forma como comunicava-se consigo mesmo. Ele partilhou que, numa madrugada qualquer, acordou com aquela urgência de ir fazer xixi e que ao chegar à casa de banho, ainda meio sonolento, surpreendeu-se com um impaciente “Mija, caralho!” através do seu DI.

Ele contou que parou por um momento e perguntou-se porque dirigia-se a si próprio com tamanha brabeza. Dando-se conta logo de seguida que esse tom era algo que estava muitas vezes presente nos seus pensamentos diários. Mesmo em tarefas simples, o seu DI era atravessado por críticas severas e uma urgência que não permitia espaço para a gentileza ou a tolerância.
Essa experiência banal abriu-lhe os olhos para um padrão que, até então, passava despercebido, mas que afetava não apenas o seus estados emocionais, muitas vezes pautados pela impaciência, mas também a sua forma de ver o mundo e de se relacionar consigo mesmo.

Para quem coloca a qualidade do seu DI como um desafio, muito longe de ser o único caminho, apanho-me muitas vezes a deixar um convite, quase que generalizado, ao exercício da auto-compaixão. Podendo soar a um simples pitaco, a verdade é que houve quem já se dedicasse a estudar sobre a importância de nos tratarmos com gentileza. Num estudo realizado pela Kristin Neff sobre self-compassion, por exemplo, ela descobriu que pessoas com um diálogo interno severo e crítico são mais propensas a sofrer de depressão, ansiedade e baixa autoestima.
Sugerindo esse trabalho que, ao substituir-se o auto-julgamento pela auto-compaixão, os sujeitos relatavam uma melhora considerável no seu bem-estar emocional.

E tu? Já paraste para prestar atenção aos conteúdos que ultimamente andam em alta rotação lá dentro e ao tom com que são transmitidos?

 

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Carla Palavra

Carla Palavra

Psicóloga, Comunicadora, Empreendedora & Defensora que o Walk venha antes do Talk.

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