Viver entre o abandono das ilhas e as palas de negação

Viver entre o abandono das ilhas e as palas de negação

Por estes dias, tive a oportunidade de estar em pelo menos três (3) ilhas e várias localidades, bairros, becos e belecos de Cabo Verde. Uma oportunidade para ver e sentir as ilhas, suas paisagens e suas gentes.

Se do ponto de vista paisagístico, a beleza das mesmas supera qualquer dificuldade, quanto mais quando esta beleza é abençoada pela chuva amiga, que pinga, pinga e escorre para o mar, do ponto de vista social, humano e humanitário, cheira a todos os ventos o odor/bafo da pobreza, miséria e desolação, do abandono e do naufrágio anunciado a que estamos sujeitos.

Desde o atribulado início das aulas, com escolas encerradas, o sistema de saúde preso por arames, o deficiente sistema de transportes marítimos e aéreos, os negócios tradicionais que estão desaparecendo, a vida social, a agonia e morte lenta dos elementos e fenómenos da convivência urbana da Cidade do Mindelo, a tristeza das Cidade do Porto Novo e Ponta do Sol, enfeitadas com bustos e silhuetas colocas em curvas, contracurvas e canteiros das mesmas, sem possibilidade visualização e deleite, dá um frio na espinha de qualquer cabo-verdiano que conheceu, num passado não muito distante, a estética e dinâmica urbanas e rurais das ilhas de Santiago, São Vicente e Santo Antão.

É difícil perceber como as ilhas, suas cidades e aldeias estão perdendo pujança, com crises a todos os níveis, com um abandono cíclico, num circulo que está sendo arrombado por gente que quer, a todo o custo, sair das ilhas, ou num círculo que está fechado, onde apenas está dentro quem, com suas palas, insiste em defender que estamos bem e, que, por exemplo, os jovens não têm motivos para saírem de Santo Antão ou para abandonarem o país. Eu enquanto jovem, digo exatamente o contrário; digo que o país, o seu sistema de governação e liderança, está criando as antíteses à permanência e sobrevivência dos jovens no solo das ilhas.

Hoje, é cómico escutar e ler a imprensa nacional que, na maioria esmagadora, tende a fazer fretes e alinhar nos discursos e descrições maquiadas de uma realidade, que só existe, na cabeça de quem está na “mó” de cima ou está olhando para as ilhas com as lentes turvas pelos interesses pessoais obscuros.

Não é normal e nem podemos normalizar o fato de aldeias e povoados como Fontainhas, Corvo, Fajã dos Cumes, Corda, Lombo Figueira, Salamansa, Almeirão, Rincão, Chã de Tanque, entres outros, estejam entrando no ciclo de fechamento de portas e abandono de casas, porque os moradores, principalmente os jovens, ficaram sem solução e, foram obrigados a se deslocarem aos centros urbanos para viverem em condições desumanas.

Olhamos para São Vicente e ficamos boquiabertos ao percebermos que as ruas, o litoral e becos da Cidade do Mindelo estão povoadas por pessoas que vivem mendigando nas ruas ou que passam o dia pedindo dinheiro ou comida.  Lugares que antes eram de convivência e lazer, hoje estão transformados em espaços para essas pessoas dormirem sobre pedaços de papelão ou onde fumam, drogam-se e bebem.

Desola-se o fato de que a comunicação e os discursos feitos estão ignorando esta realidade e focando apenas nas maquiagens que o sistema impõe, jogando para canto as questões essenciais e fraturantes de uma sociedade cada vez mais em decadência e queda livre, onde as famílias e os jovens sofrem, na pele, as dores do dia-a-dia e a ausência de condições de habitabilidade, saúde, saneamento, educação e bem-estar.

O país clama, não por políticas ocas, mas por efetivação de políticas que possam impactar na vida das pessoas onde elas estão! Não podemos continuar a colocar as palas e deixar que as nossas aldeias, os bairros, vilas e cidades entrem em colapso, um colapso anunciado e provocado pela forma leviana, amadora e egoísta como se estão a definir os usos e atributos, projetos e programas a serem implementados.

É preciso fazer algo, fazer muito mais, é preciso que mudemos a forma de ver e fazer as coisas; é preciso mudanças e, não falo de mudanças partidárias, mas sim de mudanças de atitudes, de comportamentos e na forma como nos comprometemos com o nosso país, com o nosso povo!

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Adilson Dias

Adilson Dias

Gestor de Património Cultural. Natural da ilha de Santo Antão, filho da zona de Espongeiro, sou um apaixonado pela cultura cabo-verdiana e sua riqueza patrimonial. Sempre atento a realidade do meu país, tenho nos museus a minha fonte de conhecimento e de inspiração para analisar e perceber as dinâmicas socioculturais de Cabo Verde, com especial atenção às minhas ilhas de Santo Antão e Santiago.

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