Antes tarde do que nunca?
Dizemo-la de forma automática, sem nos atentarmos ao que verdadeiramente ela significa ou deverá significar. A minha proposta neste texto é de “desconstruirmos” esta frase e no fim chegarmos à conclusão de que ela não faz sentido, pois que o “tarde” não existe.
A palavra tarde nesta frase significa que algo ocorreu depois do tempo previsto, baseando-se no pressuposto que há um tempo certo para tudo e para todos, sem exceção. Que isso possa ser verdade quando falamos de coisas e processos, não questiono nem me faz confusão que assim deva ser. No entanto, quando queremos aplicar a frase ao ser humano não me resta outra postura que não seja a de refutá-la veementemente.
Quando falamos de seres humanos não podemos esquecer que estamos a falar de seres únicos e irrepetíveis (como gosta de dizer o Dr. Augusto Cury), em que não existe um formato universal em que todos possamos ser encaixados de forma natural e ecológica, como se fossemos todos uma face diferente de uma mesma coisa.
Somos efetivamente diferentes, com vivências, circunstâncias, personalidade, traumas, visão de vida, etc, distintas do outro, por mais similares que à partida podemos parecer ser. E, dando consequência a isso, não pode existir “um tempo certo” que se aplique a todos. Não existe o one size fits all, muito pelo contrário, existem tantos tamanhos como as pessoas envolvidas.
Quando catalogamos que algo aconteceu tarde estamos a manifestar um julgamento e não um facto. Estamos a fazer uma comparação com a expectativa criada em relação à tal situação. Expectiva (social, pessoal) essa que na maior parte das vezes nada tem a ver com a realidade quer da pessoa ou da situação em causa.
Já defendi em outras crónicas que as coisas são como são, nem boas nem más, acontecem quando têm de acontecer e da forma como aconteceram. A realidade é aquilo que é, nem mais nem menos, ponto.
Somos nós com a nossa necessidade (em alguns casos a beirar o patológico) de dar significado a tudo, que acabamos por criar distorções que nos impedem de ver as coisas por aquilo que são, impedindo-nos assim de usufruir daquilo que efetivamente é.
Há tempos ouvi alguém fazer a seguinte pergunta e que acaba por inspirar esta crónica: será que se aquilo que queríamos que acontecesse tivesse acontecido no tempo que queríamos, teríamos condições para o sustentar? Fiquei a reflectir sobre isso e olhando para a minha experiência pessoal não pude deixar de me fazer essa pergunta e a resposta em cada uma das situações revisitadas foi em alguns casos um inequívoco não e noutros um dificilmente.
Sabendo aquilo que eu sei hoje, em que sou capaz de olhar para as coisas para além da primeira camada, sou capaz de ver que exigiria de mim algo que naquele momento eu não poderia dar. Não teria condições objetivas e subjetivas de as sustentar, de tirar delas o melhor proveito. Iria ficar àquem do potencial da situação, o que seria um desperdício.
Ao aceitarmos que as coisas acontecem quando elas devem acontecer conseguimos entender que só nesse momento é que estamos efetivamente capazes de tirar delas os ensinamentos e aprendizagens necessárias para a nossa evolução.
Os seres humanos foram feitos para evoluir, foram feitos para aprenderem e darem um passo que os deixe mais perto do cumprimento do potencial que guardam dentro de si. Cada um de nós nasce com um conjunto de talentos e dons que devem ser cultivados com vista à nossa capacitação e contributo para o bem comum. E o desenvolvimento desses talentos e dons exigem que respeitemos o nosso ritmo e o das outras pessoas.
Fomos feitos diferentes para que possamos efetivamente ser diferentes, só na diferença é que somos capazes de crescer e evoluir.
Ao nos mantermos presos à necessidade de que todos temos de seguir um mesmo caminho, fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo, estamos a nos impedir de fazermos aquilo que nos cabe: viver a nossa diferença.
Chegado a este ponto da crónica, em que espero ter defendido bem o que a início me propus (… no fim chegarmos à conclusão de que ela não faz sentido, pois que o “tarde” não existe) insto cada um de vocês que me lêem possa deixar cair por terra tudo aquilo que nos pode impedir de desfrutarmos da vida como ela se nos apresenta. Insto a que passem a analisar com mais critério as frases que por terem sido repetidas milhentas vezes são aceites como verdade sem questionamento e que sejam capazes de as rejeitar sempre que não passarem pelo crivo da sua concordância com a realidade.
No que ao ser humano diz respeito a única vez em que o uso da palavra tarde (no sentido da frase da crónica) é efetivamente correta e verdadeira é após a nossa morte, até lá vamos sempre a tempo.
Praia, 17 de abril de 2026.
Adénis Carvalho Silva
"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."
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