Deixem-me chorar

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Deixem-me chorar

Há dias ouvi algo que para mim fez muito sentido e que explicava a vontade que sinto em partilhar as coisas que vou aprendendo e as dúvidas que me vão assaltando. A pessoa dizia que quando aprendemos algo, quando atingimos a consciência de algo isso deixa de nos pertencer e que é algo que exige ser partilhado. Acredito nisso, que aquilo que conquistamos deixa de ser só nosso, deixa de nos servir, no entanto pode ser que sirva aos outros daí que é imperativo que a coloquemos disponível ao outro. É tão bom colocar no mundo uma parte de nós.

A resistência natural que temos em partilhar aquilo que consideramos ser uma fragilidade nossa, em partilhar aquilo que a nosso ver nos faça ser percebido pelo outro como inferior, é compreensível. Ninguém se que expor para ficar em desvantagem. No entanto, parece que nos esquecemos de que cada um de nós carrega uma máscara, à qual nos apegamos como se dela dependesse a nossa vida (em alguns momentos até depende de certa forma) e que agimos perante os outros como atores na maior parte das vezes. Somos todos culpados disso.

Não me interpretem mal, não sou contra a máscara que cada um de nós enverga para que a vida em sociedade seja possível, longe disso. Sou sim contra o fato de nos agarrarmos tanto a ela que passamos a nos identificar com ela deixando de nos reconhecer, que nos recusamos a aceitar aquilo que temos dentro de nós e que nos torna únicos e preciosos.

Como seres racionais temos a tendência de querer evitar tudo aquilo que nos pode causar dor e sofrimento, quer sejam emoções, pensamentos ou ações. Este nosso hábito, logo algo automático, acaba por nos impulsionar a querer enterrar tudo aquilo que nos dê o mínimo sinal de insatisfação ou qualquer sensação de desconforto.

Esquecemo-nos que a vida é feita de dualidade, tudo o que existe no mundo existe em contraposição a algo e é isso que nos devia permitir apreciar o que nos vai acontecendo, independentemente de a qualificarmos como positiva ou negativa. 

Assumindo a nossa tendência de querermos abafar as emoções ditas negativas (aquelas que não queremos sentir) que nos invadem por variados motivos, dei por mim a pensar no sofrimento que causamos a nós mesmos por reprimirmos aquilo que nos vai no íntimo. 

A emoção nada mais é do que uma resposta a determinada ocorrência, é algo a que devemos prestar atenção. Emoções são informações. Elas nos sinalizam que algo aconteceu, que foi captado pelos nossos sentidos quer estejamos conscientes disso ou não e ao qual o nosso corpo irá reagir.

Falando concretamente da tristeza, ela nos dá a informação de que algo que apreciamos foi perdido ou foi percecionado como perdido, indicia o fim de algo importante e como tal é expetável que isso nos doa e nos custe. É perfeitamente normal que nos sintamos tristes quando perdemos algo que nos é caro. 

Muitas vezes essa perda, real ou percecionada, diz respeito a nós mesmos, nada tendo a ver com coisas materiais ou externas a nós. Quantas vezes damos por nós tristes porque nos sentimos perdidos, porque nos sentimos obrigados a deixar partir aquilo que desejamos e pelo qual lutamos? Quantas vezes nos sentimos tristes porque os nossos planos não se concretizaram e a pessoa que projetamos ser no futuro nunca terá a chance de existir? Vezes demais direi.

E para piorar, agravando a tal perda, fazemos de tudo para negar essa tristeza, para a enterrar bem fundo em nós por não nos sentirmos com força para a encarar. E assim corremos o risco de deixar escapar a oportunidade de olharmos para nós, para o que aconteceu e daí tirarmos lições que nos permitam navegar melhor nos desafios futuros.

Quando nos recusamos a permitir que uma determinada emoção nos invada, que nos deixemos tomar por ela, em suma, quando resistimos a ela, conseguimos a proeza de a intensificar, visto que a aceitação daquilo que nos acontece é o primeiro passo para a ultrapassar.

No livro “Um novo mundo” de Eckhart Tolle, ele nos diz que aquilo a que combatemos, fortalecemos, e aquilo a que resistimos, persiste, e conclui dizendo que a não resistência, o não julgamento (não qualificar aquilo que acontece) e o não apego (não nos identificarmos com algo) são aquilo que nos permite alcançar a verdadeira liberdade e levar a uma vida iluminada. 

O segredo passa por nos permitirmos sentir, seja o que for, e ao fazermos isso abrimo-nos à vida, àquilo que é, àquilo que o presente nos entrega, em suma nos rendermos à realidade. Não devemos confundir permitir sentir a nos deixarmos paralisar pela emoção, longe disso. Sentir é permitir que o que tem de ser seja.

A única verdade absoluta na vida é de que, à exceção da morte, tudo é impermanente, passageiro e temporário. E como tal cada emoção, cada experiência, cada situação deve ser encarada como uma oportunidade para olharmos para nós, para as nossas capacidades e limitações e nos questionarmos se estamos a fazer jus àquilo que esperávamos, ambicionávamos de e para nós.

Ao entender isto e interiorizando que só desta forma poderei ser livre e consciente, tenho-me permitido deixar ser invadida pela tristeza ou outra emoção menos agradável, me rendendo a ela, permitindo-me chorar se tal me apetecer, permitindo que as lágrimas levem com elas aquilo da qual me despeço por já não fazer parte de mim. Digo adeus a essa parte minha sabendo que depois de lambidas as feridas estas começam a cicatrizar. As marcas ficam, mas elas deixam de doer com o passar do tempo.

Faço por não me recriminar, num exercício árduo e exigente, pois que velhos hábitos são difíceis de arrancar e há que perseverar incansavelmente para que o novo hábito de me render à vida se torne a minha nova pele. Há dias em que a luta é ganha, mas outros há em que a derrota é inquestionável. Longe vai o tempo em que a ida ao tapete me desanimava. Não me dou por vencida, a consciência do caminho certo dá-me forças que nem sabia ter e sigo confiante para os rounds que faltam sabendo que quem nunca desiste não é derrotado.

Por isso não calem o meu choro, não se sintam intimidados por ele, deixem-me chorar, permitam-me extravasar aquilo que me vai dentro, deixem-me despedir daquilo que foi meu, ainda que em sonhos e fantasias. Deixem que o meu lamento possa sair do meu peito e encontre o seu caminho me libertando da dor. Deixem-me chorar…

E pode se dar o caso em que o vosso choro possa se unir ao meu e nesse momento a distância que nos separa deixe de existir e nos reconheçamos como parte de algo maior, de algo que é e que dá significado a cada um de nós.

Praia, 8 de outubro de 2025.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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