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É assim que me deparo com a minha mente a viajar no tempo. Sim, as nossas memórias são um produto da nossa vivência (coisas, pessoas, momentos especiais, entre outros) que é guardado num processo contínuo e em tempo real na nossa massa cinzenta, e basta um simples facto para ela entrar em modo flashback. Sendo que recordar é também viver, de novo volto a viver a minha rica infância.
A máquina do tempo no qual eu viajo para algures na cozinha da minha avó materna, na distante década de noventa. Estamos num dia qualquer de invernada, com frio e chuva. A chuva, embora miudinha, cai quase que de forma contínua, impedindo as nossas brincadeiras ao ar livre. Por isso, recolhemo-nos na cozinha, aproveitando o calor gerado pela queima da lenha que, vagarosamente, vai cozendo a cachupa de milho de terra com carne de porco e toucinho salgado na velha caldeira de três pés.
Por esta altura, os fazendeiros que trabalham as meradas à meia, trazem alguns sacos de milho e uma pequena quantia de feijão verde e seco, nossa quota-parte da colheita do ano. Abrimos os sacos e separamos as espigas. As melhores espigas de milho são descascadas de forma a que parte da palha fique nelas e são entrelaçadas, duas-a-duas, para se formar uma corda de milho. As cordas de milho são penduradas no teto da despensa para servirem de sementeira nas próximas azáguas.
“Já encontrei um sul!”
Enquanto descascamos o milho, algumas lagartas de cartucho são encontradas ainda dentro do próprio casulo. Ficamos (os meninos) fascinados com elas e transformamo-las em brinquedo. A avó nos diz que são “sul” e que se lhes perguntarmos “ó sul onde fica o Norte” elas no-la indicam. Brincamos por alguns momentos, mas rapidamente a brincadeira fica entediante e acabamos por as descartar. Estamos aqui para trabalhar e não para brincar.
“Olha uma boca de cabra!”
Com o milho já todo descascado e limpo, iniciamos a debulha. Todo o milho é debulhado manualmente e para acelerar o processo, utilizamos um caroço de milho (inganha) para fazer a pressão nos grãos da espiga. Aproveito os caroços de milhos para montar o meu pequeno trapiche e brincar por mais alguns minutos. Fico a imaginar os possantes bois dando voltas à volta do trapiche, enquanto a calda de cana sacarina vai jorrando num recipiente.
Temos feijão para descascar! Feijão ervilha, favas e feijão d’home. Mais uma vez, o trabalho leva à brincadeira, envolvendo adultos e crianças em bons momentos de diversão. Quem for o primeiro a encontrar uma vagem contendo grãos de ervilha de cor vermelha amarra os demais. Assim, todos apressam a descascar o feijão, por forma a amarrar ou se desamarrar dos demais. Em pouco tempo, já descascamos várias canecas de feijão ervilha. Ufa, todo o trabalho deveria ser feito assim!
“Já te amarrei!”
Os gatos aproveitam para se divertir, enquanto brincam com as palhas ou caroço de milho. Os mais preguiçosos estão deitados no armário de lenha que fica sob a placa de betão onde está o fogão de três pedras. Enrolados numa espécie de bola de pele, dormem tranquilamente, longe da chuva e do frio da invernada, aquecidos pelo calor que vem do fogão de lenha. Ah, vida de gato!
Para nos compensar o trabalho e aquecer ainda mais a alma, a nossa avó decide fazer-nos uma panela de prentêm ou milho ilhado. Para que o prentêm possa ficar com vários grãos pipocados (galos), ela adiciona ao milho um pouco de areia preta fina que depois se descarta. Junto à caldeira onde coze a cachupa de milho, ela enterra uma banana madura ou batata doce nas cinzas para assar. Que delícia!
Natsukashii!
Socram d’Arievilo, in “Ilhéu de Quimeras”
Natsukashii – expressão japonesa usada para designar a nostalgia.

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.







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