Sinto medo, e depois?

Sinto medo, e depois?

É comum e compreensível que queiramos abafar toda e qualquer emoção que nos faça sentir alguma apreensão ainda que não saibamos bem porquê. Toda e qualquer apreensão nos coloca num lugar de desconforto, tirando-nos do equilíbrio que nos permite viver tranquilamente.

A emoção nada mais é do que interpretação do cérebro/mente a um estímulo externo, é informação, não sendo nem boa nem má. E, como toda informação é relevante, devendo ser levada em consideração. Dito de outra forma, toda a informação deve ser analisada, não somente recebida. 

A emoção é despoletada por um estímulo que é percebido pelo nosso cérebro/mente sem que tenhamos consciência do que a despoletou. Com a perceção desse estímulo, o nosso cérebro/mente reage em frações de segundo, inundando o nosso corpo de hormonas, neurotransmissores e ativação do sistema nervoso. Só posteriormente a parte racional será ativada e, como tal, quando sentimos os primeiros efeitos da emoção no corpo o estímulo foi analisado de forma incompleta.

O medo é uma emoção que nos informa de que o nosso cérebro/mente entendeu o estímulo como algo perigoso e fez soar um alarme interno. O medo é despoletado quando o cérebro/mente quer chamar a nossa atenção para algo que é importante para nós e ao qual precisamos responder. 

O perigo para o qual o medo nos quer alertar pode ser real ou imaginário. Permitam-me dar especial ênfase à parte final da frase anterior, o perigo pode ser imaginário. Quer isto dizer que o facto de sentirmos medo não quer dizer que estejamos efetivamente em perigo. Quer somente dizer que perante algo o nosso cérebro/mente entende que a nossa atenção é necessária, pelo que nos tira do modo relaxado colocando-nos em modo alerta.

Tratando-se a emoção de mera informação ela não deverá ser aceite logo à partida como verdadeira, sob pena de agirmos baseados num equívoco. A emoção deve ser alvo de escrutínio da nossa parte para que a possamos identificar como justificável ou não e agirmos de acordo. Escrutínio esse que é feito pela parte racional do cérebro/mente e que como vimos é chamada a intervir posteriormente.

Já vimos em outras crónicas de que o cérebro/mente não é apologista da mudança, sendo esta vista como algo a evitar, pois que traz imprevisibilidade para um sistema em que a previsibilidade é o valor máximo. 

Perante o novo nos encontramos literalmente “às cegas” ao que aí vem. Daí a grande resistência que enfrentamos quando nos dispomos a fazer qualquer mudança: o desconhecido assusta e pode paralisar. E só nesse caso é que devemos considerar o medo como algo mau: quando nos paralisa.

O medo não deve ser encarado como a emoção que nos quer dizer para ficarmos paralisados, mas sim para percebermos que a nova ação exige cuidado e atenção redobrados. O medo é muitas vezes despoletado pelo simples fato de estarmos perante algo novo. Por ser algo novo o nosso cérebro/mente não tem repertório do que fazer, visto que o repertório é construído pelas nossas experiências passadas. Sem referências ele entende que ficar parado é a melhor resposta.

Como acima referi a emoção nos assalta sem que a parte racional do cérebro seja ativada em simultâneo, pelo que é crucial para uma reação adequada ao estímulo que fez soar o alarme de perigo (para o caso do medo), sejamos capazes de fazer um compasso de espera. De darmos tempo para que todos os sistemas internos acordem e possam processar o estímulo, olhando-o de todos os ângulos possíveis.

Muitas das decisões das quais nos arrependemos são tomadas no “calor do momento”, quando nos encontramos sobre a influência poderosa da emoção, em que o nosso cérebro de encontra sequestrado pelos nossos instintos primários de sobrevivência, em que a nossa mente racional não pôde analisar o estímulo e nos possa dar uma leitura mais correta sobre o que se passa.

Não podemos esquecer de que o objetivo primordial do nosso cérebro/mente é nos manter vivos pelo que perante todo e qualquer perigo detetado, ainda que imaginário, ele nos quer a combater e eliminar a ameaça. 

Quanto maior for a nossa abertura perante o novo, quanto maior for a nossa capacidade de abraçar experiências variadas, mais facilmente conseguiremos fazer uma gestão saudável e adequada de toda e qualquer emoção. 

Ao sermos capazes de conseguir olhar para além da emoção nua e crua, seremos capazes de enfrentar e ultrapassar tudo o que se cruzar no nosso caminho. Como toda a emoção, o medo faz parte de nós, é transitório e deve ser encarado de frente. Sintonizemo-nos na informação, não naquilo que sentimos.

 

Praia. 24 de fevereiro de 2026.



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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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